Rui Pereira

Professor universitário

A casa de Hitler

22 de outubro de 2016 às 00:30
Partilhar

Em 20 de abril de 1889, a ignara localidade de Braunau am Inn, integrada na Áustria, registou um acontecimento decisivo na história mais recente: o nascimento de Adolf Hitler, sexto filho do funcionário da alfândega Alois Hitler e de sua mulher, Klara Pölzl. Hitler foi o primeiro responsável por uma guerra mundial devastadora e por um genocídio racial e eugénico.

A casa onde Hitler nasceu é destino turístico de uns tantos neonazis. Por cruel ironia, alguns ignoram que, noutros tempos, se candidatariam aos programas de eutanásia das vidas sem valor vital e de esterilização forçada patrocinados pelo "mestre". De todo o modo, o desconforto com esta situação levou o Ministro do Interior austríaco a anunciar a demolição do edifício.

Pub

Felizmente, esta ideia insensata (não se muda a história através da demolição de prédios ou da mudança de toponímia) foi contrariada por um comité responsável por decidir o destino a dar ao edifício, que se inclina, muito provavelmente, para a instalação de uma casa- -museu. A denúncia dos horrores do nazismo só pode ser feita através da cultura e não do camartelo.

Este episódio fez-me recordar, à nossa modesta dimensão, uma visita recente que fiz ao Conservatório de Música do Porto. Situado na Praça Pedro Nunes, o edifício que o alberga mistura os mais nobres materiais usados na construção de casas portuguesas: granito, madeira e azulejo. Nas paredes, ostenta diversas placas, correspondentes às intervenções a que foi submetido.

Entre as placas variadas, persiste a que assinala que o edifício foi construído, em parte, durante a ditadura nacional (instituída após o golpe de 28 de maio de 1926 e a eleição de Óscar Carmona como Presidente da República). Se, amanhã, alguns saudosistas vestidos com a farda da "mocidade portuguesa" visitarem o edifício, sugiro já que não lhe retirem a placa.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar