Honoré Daumier, célebre caricaturista francês do século XIX (a quem chamavam Miguel Ângelo da caricatura), deixou-nos uma antologia de imagens da justiça que retratam com acutilância os juízes e advogados do seu tempo. Aquela que eu prefiro representa um causídico a invocar, em benefício do seu cliente parricida, a circunstância atenuante de ele ser um pobre órfão!
Não sendo advogado, Donald Trump domina na perfeição a arte do ‘venire contra factum proprio’ (ou seja, da mais refinada má-fé). Hillary Clinton acusa-o de não pagar impostos, dar emprego a imigrantes mexicanos ilegais ou importar materiais de construção chineses? Claro que é verdade, mas a culpada é ela, por não ter feito aprovar leis mais severas e eficazes…
Já sabemos, portanto, como este corifeu da sandice poderia justificar qualquer erro: "A culpa é vossa, que me elegestes." Felizmente, porém, todos vaticinam a sua derrota. Mas como chegou tão longe alguém que, segundo o ‘mentirómetro’ criado pelos media (por favor, exportem- -no depressa), ostenta uma taxa de aldrabices de 80%, contra os modestos 20% da opositora?
Piores do que as mentiras, são as ideias de Donald Trump sobre Estado de Direito, democracia e justiça. Só aceitará o resultado das eleições se as ganhar e, nessa exata circunstância, já prometeu encarcerar Hillary Clinton. Inspira-se, decerto, em políticos espertos como Idi Amin Dada e Kim Il Sung, mas não nos ‘founding fathers’ do sistema constitucional norte-americano.
Tem-se dito que Hillary Clinton é um mal menor nesta eleição. Todavia, o discurso da candidata não autoriza um tal nivelamento por baixo com Donald Trump. Experiente, bem preparada e sensata, a ex-secretária de Estado deverá demonstrar que a ciberespionagem ainda não elege o presidente dos EUA e que uma mulher pode exercer com proficiência esse difícil cargo.n
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