Sofia Blyuvshtein (1846–1902) não era uma mulher bonita. Nem precisava. Um olhar hipnótico, uma capacidade única de sedução e a inteligência acima da média fizeram da russa um nome ímpar da história do crime mundial. Ficou conhecida por ‘Son’ka (ou Sonya), a mão dourada’ e, ainda hoje, há ladrões que passam pela estátua em sua honra num cemitério de Moscovo para pedir boa fortuna.
Um dos golpes mais famosos de Son’ka teve lugar em 1883, quando convenceu um velho joalheiro de que era casada com um médico, que lhe queria dar diamantes de prenda. Ao mesmo tempo e em sentido contrário, convenceu esse clínico de que era casada com o ourives, pedindo ajuda, já que o suposto marido se encontrava num estado de loucura, só falando em joias e pagamentos. Quando os dois homens se encontraram, o joalheiro exigiu dinheiro ao médico e este mandou-o internar. Sofia fugiu com as pedras preciosas.
Reza a lenda que a mulher inventou ainda o método ‘Bom dia’. Assaltava quartos de hotéis pela manhã e, quando surpreendida, fazia uso do seu QI. Um simpático "bom dia" iniciava a conversa que poderia de seguida passar por um "enganei-me no quarto" ou "precisa que lhe traga alguma coisa?" e acabava com os furtos consumados com êxito.
Recordei a lábia de Blyuvshtein ao conhecer a história de Pedro, um jovem ladrão de 27 anos apanhado dentro de uma casa no rés do chão de um prédio na rua de Passos Manuel, no Porto. Estávamos em 1995. O proprietário, de 47 anos, fez-lhe a pergunta que se impunha: "O que é que você está aqui a fazer?"
Momentaneamente invadido pelo espírito de Son’ka, Pedro colocou-se hirto e sorriu. "Bom dia. Peço desculpa, sou o vizinho do 4º andar, deixei cair uma peça de roupa do estendal e vim procurá-la." Uma justificação com algumas falhas, mas suficientemente plausível, não fosse um detalhe que nunca escaparia à russa: o edifício não tinha quatro andares, mas sim apenas três. O morador chamou logo a polícia e o assaltante arrancou pela janela fora.
Quando chegou, a PSP já não encontrou o falso vizinho. Porém, os ferimentos que o jovem sofreu na fuga deixaram um rasto de sangue que viria a terminar num armazém abandonado. Estava dentro de um armário, coberto por tábuas de madeira e já desmaiado. Apesar de não ter passado pela estátua de Son’ka – afinal, 4400 km ainda são um esticão –, até teve sorte. Se não fosse encontrado, corria o risco de ficar coberto por tábuas de madeira para sempre.
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