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Sérgio Pereira Cardoso

Tudo por amor

O ladrão é um fingidor. E também finge completamente.

Sérgio Pereira Cardoso 1 de Maio de 2016 às 01:45

Por vezes, usa armas de brincar, outras cria distrações para concretizar um astuto furto de carteira. Mas melhor do que ladrões fingidores, só mesmo ladrões inventados. E o ano de 2016 tem sido pródigo em imaginativos argumentistas de crimes que nunca existiram. E tudo por uma razão nobre: o amor a outrem.

Recuemos uns meses até janeiro passado, quando um homem de 32 anos, desempregado, passou com a namorada em frente a uma joalharia do Parque Nascente, em Rio Tinto, Gondomar. A mulher ficou fascinada com um colar de prata e o seu mais-que-tudo fez-lhe a promessa de que o iria adquirir. Até teve sorte. A peça custava 90 euros e era das mais baratas da loja. O problema é que a situação financeira não estava fácil, talvez devido aos gastos de Natal e ao belíssimo smartphone de 500 euros que guardava no bolso.

Engendrou então um plano hollywoodesco. Contou à namorada que tinha comprado o colar, mas que, ao chegar a casa, dois ladrões, encapuzados, armados e violentos assaltaram-no. Levaram a joia, os documentos e o telemóvel. Fugiram num Honda Civic, pormenorizou, relevando que tudo fez para se agarrar à joia que tanto lhe queria oferecer. A Polícia Judiciária foi chamada a investigar o roubo violento e rapidamente decifrou o que se passava.

Para dar credibilidade ao terror que havia passado, o homem até atirou o telemóvel fora. Resultado: está indiciado por simulação de crime, perdeu o smartphone de 500 euros e, pior, a namorada ainda ficou chateada. Agora, não há dinheiro para joias nem para um telemóvel novo. Aliás, a pedir emprestado, que seja para pagar a um advogado. Vai precisar.

O amor é assim. Pelo menos, para eles. Sim, que este não foi caso único. Já em abril, em Vila do Conde, um pasteleiro de 30 anos queria resolver a crise que atravessava no casamento. Sabia que a mulher gostava de ter um iPad, mas o marido não tinha dinheiro para comprar um novo e dar-lhe o seu próprio equipamento era um gesto que já ultrapassava os limites do altruísmo.

Solução: inventar um assalto – sempre armado, que estes senhores não fingem crimes sem pistola pelo meio – e pedir o seguro do iPad, que os supostos ladrões violentos lhe tinham levado. Mais uma vez, a PJ do Porto, que já deve andar a ponderar criar um gabinete especializado em simulação de crime por amor, demorou pouco tempo a descobrir a falácia. O iPad estava em casa do pasteleiro, bem guardadinho e estimado. Este, pelo menos, não perdeu tudo.

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