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Sérgio Pereira Cardoso

Uma cara conhecida

Talvez não seja boa ideia assaltar casa de que se é cliente.

Sérgio Pereira Cardoso 17 de Julho de 2016 às 00:30

O ladrão é um ser humano. Tem necessidades como todos os outros e o direito de ir às compras a um centro comercial num qualquer domingo e, se necessário ou mais confortável, de fato de treino, sandálias e meias brancas. Pode é, eventualmente, pagar ou não pelos produtos. Mas até nem foi isso que levou a que este jovem de cerca de 20 anos fosse detido pela GNR no CascaiShopping, a 6 de janeiro de 2013, quando aproveitava os saldos pós-Natal.

 

Tudo começa uns dias antes, na manhã de 24 de dezembro. Pela oitava vez, o rapaz entrava na loja ‘Ouro Damas’, de compra e venda daquele metal precioso, onde iria ser recebido com a simpatia que merece um cliente conhecido – sempre com boas peças para alienar no estabelecimento da rua João Pires Correia, em Alcabideche, Cascais. A funcionária mal teve tempo para dizer "bom dia". O ladrão encostou-lhe uma faca à barriga e exigiu o dinheiro da caixa, mais de 300 euros. Tão depressa entrou como fugiu, embora já apanhado nas câmaras de videovigilância.

 

Para evitar erros à investigação policial, até deixou para trás o Bilhete de Identidade, o que dá sempre jeito, porque permite-me tratá-lo pelo nome. Pois bem, aparentemente – não se tratando de uma falsificação -, chamava-se Ricardo o craque que assaltou, de dia e com a cara destapada, a mesma loja onde tinha ido vender ouro em sete ocasiões anteriores. Como nesta página também há espaço para um pouco de cor-de-rosa, informa-se que essa mesma loja pertencia a Juan Soutullo, ator de novelas como ‘Remédio Santo’, ‘Morangos com Açúcar’ ou ‘A Única Mulher’.

 

Ricardo não se escondeu. Continuou a fazer a sua vida normal. Até que, nesse fatídico domingo de janeiro, se cruzou com a vítima, ainda pouco refeita do trauma e perfeitamente recordada do homem. É que nem sequer houve aquele esforço de um "conheço esta cara de algum lado". ‘Esta cara’ tinha ido oito vezes à ‘Ouro Damas’ e o assalto, filmado, havia ocorrido duas semanas antes. Era ele, claro, e foi detido pela GNR.

 

Após busca domiciliária, os militares perceberam que as peças que Ricardo vendera tinham sido todas roubadas à própria namorada. O amor é lindo. Talvez estivesse no shopping à procura da prenda que compensaria a companheira, mas escolheu mal o dia: domingo num centro comercial é mesmo estar a pedir para ser reconhecido – seja por aquele amigo de faculdade a quem prometemos um jantar sem falta ou por aquela funcionária da loja que assaltámos.

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