Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Tiago Rebelo

Ciúmes

Ele acredita que ela seria incapaz de o trair.

Tiago Rebelo 21 de Setembro de 2014 às 00:30

Quando pensa nisso, ela fica um pouco desconcertada por ele não ter ciúmes. A segurança dele contribui para a insegurança dela. Os casais discutem por causa dos ciúmes, é um sentimento inconveniente que chega a destruir relações, porém, ela pensa que um bocadinho de ciúmes não lhe ficaria mal.

Ele acredita que ela seria incapaz de o trair. Poder-se-ia pensar que é uma ingenuidade, evidentemente, porque todas as pessoas são capazes de trair os seus pares quando as circunstâncias as levam a isso. Mas, justamente, ele está ciente de que não é o caso, ou seja, que as circunstâncias não estão reunidas para que tal aconteça.

Passam uma tarde na praia. O Verão está a chegar ao fim e, premonitoriamente, o dia quente e soalheiro começa a ficar escuro e cercado por nuvens negras que ameaçam chuva ao pôr do Sol. Mas, ainda antes dos prenúncios da tempestade, eles sentam-se na esplanada do bar onde ficam tranquilos a ver a praia.

Ela observa-o ensimesmado com os olhos postos no mar e repara naquele seu lado sonhador que o leva muitas vezes a esquecer-se do que o rodeia. Ocorre-lhe que se se fosse embora nesse momento ele nem daria por isso. É um exagero, claro, mas acontece-lhe ter essa sensação quando está na sua companhia. Está convencida de que o ama mais do que ele a ela, embora possa não ser verdade. Aliás, como se pode medir o amor? Como se pode saber se se gosta mais de uma pessoa ou se é precisamente o contrário? O mais provável é que haja momentos em que ela se sente mais presa a ele e outros em que acontece o inverso.

De facto, é difícil medir o amor, senão por palavras e gestos, mas mesmo esses são enganadores, porque as pessoas não se revelam todas da mesma maneira. Ela é mais expressiva, ele é mais calado. Ela deseja tanto a atenção dele que chega a desesperá-lo, porque se zanga por insignificâncias e provoca discussões desnecessárias. Mas há momentos em que é encantadora e então ele esquece tudo e pensa que não a trocaria por nada.

Começa a levantar-se vento e, atrás deles, as nuvens pesadas descem a serra. Ele sorri-lhe. Nunca tens ciúmes de mim?, pergunta-lhe ela, assim do nada. E porque haveria de ter? Ora, porque sou muito bonita e há sempre muitos homens a meterem-se comigo, brinca. Ele ri-se, sem lhe dar resposta. Sacana, diz ela, também a rir-se.

Dali a pouco caem os primeiros pingos. Acho que vai chover, diz ele. Ela abana a cabeça: Acho que já está a chover. E esse é um daqueles momentos de perfeita sintonia, em que os seus olhos se encontram e eles se amam por igual. De modo que se vão embora felizes, de toalha ao ombro e de mãos dadas debaixo de chuva.

Tiago Rebelo Breves Histórias crónica casamento improvável
Ver comentários