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Tiago Rebelo

A tua voz

Pensa que o mais provável é não saber como ele é, pois só o viu em fotografias e estas podem enganar.

Tiago Rebelo 24 de Maio de 2015 às 00:30

Uma algaravia alegre preenche as salas repletas de gente que quase grita para se fazer ouvir na sobreposição de vozes. Todos conversam em pequenos grupos; todos têm um copo na mão; todos circulam ocasionalmente por entre as salas. Nas paredes, os quadros apresentam cenas de praia individuais, o motivo exclusivo a que o pintor se prendeu desta vez.

Ela deambula pelas salas, muito atenta aos quadros. Ele observa-a à distância, distraído da conversa do seu grupo de amigos, notando que está sozinha e que se move por entre as pessoas sem conhecer ninguém.

O convite para a inauguração da exposição está há vários dias na mesinha à entrada de casa. Chegou-lhe pelo correio. Ela sabe quem o enviou. Vinha acompanhado de um recado escrito à mão: Vou estar aqui na data indicada. Vem ter comigo.

Ela decidiu que não vai, não o conhece realmente, senão por algumas mensagens no Facebook. Não, claro que não vai. Sentada na sala a ver televisão com o jantar num tabuleiro, no colo, ocorre-lhe subitamente que está a deitar fora uma oportunidade e talvez, quem sabe, se arrependa durante muito tempo. Põe o tabuleiro de lado, vai mudar de roupa, apanha o convite de passagem, sai de casa.


Entra na galeria de arte e fura por entre as pessoas com os olhos postos no chão. É uma ousadia o que faz, um desafio à sua timidez, mas não vai à procura dele, não tem coragem para tanto. Ele que a encontre, pensa, com o coração a bater com força, receando uma desilusão, se ele não a descobrir.


Vai admirando os quadros e, ocasionalmente, olha de relance a sala, disfarçando a ansiedade, mas não o reconhece em nenhum dos presentes. Pensa que o mais provável é não saber como ele é, pois só o viu em fotografias e estas podem enganar. Só falaram uma vez ao telefone. Ele disse-lhe, por mensagem, que queria ouvir a voz dela. Um homem aproxima-se e pergunta-lhe se gosta dos quadros. Ela volta-se e encara-o, surpreendida. Ele tenta fazer conversa, mas ela dá-lhe uma resposta vaga e afasta-se.

Ao vê-la afastar-se do homem, ele vai ao seu encontro e pergunta-lhe o que acha da exposição, muitos quadros iguais, não? Ela sorri, aliviada, mas responde-lhe sem se voltar. Não, diz, não são iguais, porque, se nos afastarmos e dermos atenção ao conjunto, podemos ver a praia inteira. Não são iguais, completam-se. Tens razão, exclama ele, muito bem visto. Então ela volta-se para trás e sorri-lhe. Como sabias que era eu? Pergunta ele. Pela tua voz, diz ela no seu timbre levemente rouco, que ele também reconhece.
Tiago Rebelo
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