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Tiago Rebelo

Amor eterno e quezilento

Ele bate com a porta de casa furioso depois de a ouvir gritar um impropério.

Tiago Rebelo 16 de Novembro de 2014 às 00:30

Dá por si no Bairro Alto. É hora de jantar, os restaurantes fervilham de animação e os bares ainda estão vazios.  Embrenha-se  pelas vielas, por entre os transeuntes atrasados que procuram um lugar  para  comer.  É  sexta-feira  e torna-se  difícil  arranjar  uma mesa livre. Mas isso não lhe interessa, não tem fome, quer apenas um canto onde se enfiar durante algum tempo.

Entra num  bar,  escolhe  uma mesa, pede uma bebida. Fica ali carrancudo  a  bebericar  e  a  remoer a discussão com a mulher, ressentido com as palavras dela, incomodado com as suas. Gostava tanto que não fosse assim, que não arranjassem motivos fúteis para  discutirem  todos  os  dias. Mas há sempre qualquer coisa, acusações que lhes saem da boca, recriminações antigas, problemas mal resolvidos que se intrometem na relação e emergem à mínima contrariedade para lhes estragar o dia.

Na mesa ao lado duas raparigas estrangeiras e  bem  mais  novas conversam em alegre cumplicidade enquanto bebem coquetéis. Repara nelas e sente-se abalado por uma pontinha de nostalgia. Pensa que a vida nunca é tão bem sucedida como a perspectivamos naquela idade em que o futuro é encarado com despreocupação. As dificuldades são imensas e o amor eterno não é isento de quezílias. Há alguns anos não imaginava que o seu casamento acabaria por se tornar um braço-de-ferro permanente.

Enfim, termina a sua bebida a pensar que está para ali feito parvo com reflexões banais que não o levam a nada.  Agora  que  já  se  acalmou começa a pensar que exagerou ao sair de casa daquela forma tempestuosa. Chama o empregado, paga, vai-se embora.

Entra em casa. Encontra-a sentada à mesa, frente a um prato vazio. O jantar aguarda intacto na travessa. Tem um cigarro entre os  dedos  e  paira  sobre  ela uma nuvem de fumo cinzento. Ele senta-se à mesa e resmunga um  pedido  de  desculpas,  uma capitulação  ao  orgulho  que  só lhe sai a custo. Ela apaga o cigarro no cinzeiro a transbordar de beatas, pega no prato dele e serve-o. A comida está fria, evidentemente, mas ela não se dá ao trabalho de a ir aquecer e ele não  faz  nenhum  comentário.

Comem em silêncio, cientes de que  nunca  se  vão  separar,  por mais  discussões  que  tenham  e por  mais  ressentimentos  que acumulem ao longo da vida. Depois do jantar ela arruma a cozinha  e  ele  ajuda-a.  Mais  tarde vão fazer as pazes e vão dormir juntos reconciliados.

Tiago Rebelo breves histórias
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