Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Tiago Rebelo

Conciliar o amor

A relação descamba quando ela começa a perguntar-se se não estará enganada, ou pior, se não estará a ser enganada.

Tiago Rebelo 28 de Junho de 2015 às 00:30

Ela fica desapontada quando o namorado se desliga dos seus braços, vira-se na cama e adormece; fica incomodada quando, sentados numa esplanada, ele se distrai da sua presença e observa pensativo a paisagem urbana. Ela deseja-o sempre, como uma mulher deseja um homem, de um modo apaixonado, contínuo, sem hiatos. Quer tê-lo sempre ao seu lado, cativar a sua atenção permanente, pois não gosta que ele se distraia dela. Sente-se abandonada pela independência dele.

Ele não compreende a impaciência dela, diz-lhe para não se preocupar, porque a ama e não a vai deixar nunca, mas ela, irritada, desconfia que são só palavras e que ele não a quer verdadeiramente. Se o namorado se ausenta uns dias, pensa, ressentida, que ele não se importa de se afastar porque, no fundo, vive bem sem ela. Mas não é assim, pois pode afastar-se momentaneamente, mas precisa de voltar, e o melhor de tudo é a felicidade de saber que ela o espera. Não há nada mais reconfortante do que a sensação de tranquilidade que a dedicação e o amor dela lhe transmitem.

Mas, precisamente, ela convence-se de que ele não valoriza a sua dedicação e começa a perguntar-se se não estará enganada, ou pior, se não estará a ser enganada.

Vai a conduzir de regresso à cidade. Comprou-lhe um presente e anseia por ver a sua cara feliz quando lho oferecer. Mas ao chegar a casa dela tem uma recepção fria e uma pergunta recriminatória: Porque não me telefonaste hoje? Ora, porque vinha ter contigo. E achaste que não precisavas de me avisar? Ele abre os braços, desconcertado, sim, responde, se te vinha ver!

Por mais que ela lhe mostre que precisa dele por perto e que a sua presença nunca é suficiente, ele não entende esta inquietação. Por mais que ele lhe diga que a ama e lhe explique que não tem nada a recear, ela não consegue deixar de o sentir distante, desinteressado, descomprometido. Finalmente, desiludida e ofendida, decide acabar tudo e declara que o deixa de vez, porque estás comigo mas não estás, afirma. Ele, descoroçoado, pede-lhe que fique, mas é demasiado tarde, pois ela está determinada e não vai recuar, nem que seja para lhe dar uma lição. Fá-lo para o magoar, em retaliação por ele se permitir votá-la ao abandono enquanto estavam juntos, talvez por a tomar como certa. Em contrapartida, ele vê a sua partida como uma deslealdade, uma traição ao amor.

Assim, vai cada um para o seu lado e recomeçam o ciclo de mal-entendidos com pessoas diferentes, porque não aprenderam a conciliar o amor.

Tiago Rebelo crónica breves histórias conciliar o amor
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)