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Tiago Rebelo

O primeiro encontro

Ocorre-lhe que a única pessoa que conhecemos deveras somos nós próprios.

Tiago Rebelo 1 de Fevereiro de 2015 às 00:30

Ela pergunta-se que interesse terá por si o homem que está sentado à sua frente. Estão separados por uma mesa redonda e há duas chávenas de café em cima do tampo, que vão bebendo enquanto conversam animadamente. Ele convidou-a para tomar um café ao fim da tarde, mas quase não se conhecem ainda e ela pensa que conhecer bem alguém é demorado, é necessário tempo.

Ocorre-lhe que a única pessoa que conhecemos deveras somos nós próprios. Dos outros, sabemos melhor ou pior como são, e até podemos saber tão bem que somos capazes de lhes prever uma palavra, um gesto, uma reacção, mas é sempre possível surpreenderem-nos quando menos esperamos. Essa ideia do inesperado em contraponto com a certeza agrada-lhe, enfim, agrada-lhe moderadamente, pois gosta de saber aquilo com que pode contar.

Ele está a falar-lhe da sua vida e a pensar como é bonita e como isso o entusiasma. De facto, bastou-lhe vê-la uma primeira vez para desejar conhecê-la melhor. Reparou nela numa festa e notou logo como se destacava na confusão alegre de um grupo de gente que dançava no centro da sala.

Perguntou a alguém quem era e, ainda que não tivesse tido oportunidade de lhe falar a sós, conseguiu aproximar-se e trocar com ela algumas palavras perdidas no clamor da música demasiado alta para se manter uma conversa inteligível. Um fracasso.

Mas a imagem do seu sorriso, do cabelo dourado pelos ombros, do vestido florido, impôs-se-lhe nos dias seguintes, levando-o a perseverar na ideia de que tinha de sair com ela. Por isso, enviou-lhe várias mensagens. Ela, desconfiada, resistiu aos seus avanços persistentes, mas acabou por ceder e agora ali estão, finalmente, a conversar. Ele sorri, já é uma vitória, pensa.

Porque te ris, pergunta ela.

E ele, que não se tinha apercebido de que ria, encolhe os ombros e diz simplesmente: porque estou feliz por estar aqui contigo. Ela, apanhada desprevenida, pensa bolas, estou a corar! Estás a envergonhar-me, reclama, apesar de se sentir lisonjeada pelo seu comentário. Gosta da sua sinceridade desconcertante. É um bom princípio, pensa.

Como sabemos se uma relação vai correr bem? Não sabemos, a não ser se lhe dermos uma oportunidade. No momento em que ele pede a conta ela já decidiu que vai dar-lhe uma oportunidade.

Quando saem do café ela desequilibra-se na calçada do passeio e ele precipita-se para a segurar. Agarra-se ao braço dele e não o larga mais. Vão assim pela rua, de braço dado, felizes na companhia um do outro, a descobrirem uma intimidade nova que lhes oferece uma excitante sensação de que vai correr tudo bem. 

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