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Tiago Rebelo

Para sempre

Quando ele chegava a casa, já tarde, encontrava-a a dormir porque tinham horários diferentes.

Tiago Rebelo 15 de Fevereiro de 2015 às 00:30

Viviam desencontrados por força do trabalho, que os afastava um do outro. Mas então ele deslizava por baixo dos lençóis, passava os braços em volta dela, cingia-a a si, beijava-lhe o pescoço, segredava-lhe boa noite, meu amor. E nesse instante, como que emergindo das águas profundas de um sono pesado, ela aconchegava-se mais nele e sentia-se bem, segura e confortável.

No fim-de-semana acordavam cedo para darem passeios lentos pela margem do rio; saíam para jantar e tinham longas conversas, só suas; divertiam-se a dançar pela noite e riam-se como perdidos de piadas cúmplices que mais ninguém poderia compreender ou achar graça. Já durante a semana, ela lembrava-se dele a qualquer hora e sorria a pensar que o amor inspirava sentimentos bons.

Recorda esses momentos como pedaços felizes de uma relação que foi soçobrando até terem em comum só as divergências que teimaram em não resolver, as dificuldades que talvez pudessem ter ultrapassado se tivessem conversado mais. Quem sabe? Hoje, ela percebe, descoroçoada, como ficou tudo claro quando já era demasiado tarde: o que deviam ter dito, o que deviam ter feito. E pergunta-se como não viu isso antes.

Em tempos foram amantes convictos da eternidade; depois foram náufragos agarrados teimosamente a desejos diferentes, cada um mais seguro de que a sua vontade divergente era a melhor solução para os dois. Era como se dissessem: não me falta amor por ti, mas não quero ir contigo por esse caminho; como se fosse possível amarem-se sem quererem seguir na mesma direcção. O caminho procura-se em conjunto, não há outra maneira.

No fim, ela disse foi um erro, nós… Ele, tentando consolá-la desajeitadamente, disse não foi um erro, foi bom e divertido enquanto durou. E ela, exasperada com tanta insensibilidade, replicou-lhe: eu não queria apenas divertir-me, queria poder pensar que éramos para sempre, percebes? O amor só é bom se for para sempre!

E nunca abandonará esta sua verdade determinante. Mas já não o recorda com o mesmo desalento dos tempos amargos que se seguiram à separação, já não quer saber se a desiludiu, não quer saber dele, na verdade. Pensa só que foi um erro, sim!

E no entanto não está desanimada, pelo contrário, está optimista e voltou a sorrir, pois tem a certeza de que um dia vai acabar por encontrar alguém que queira procurar o mesmo caminho consigo, acredita que da próxima vez vai acertar, vai sentir que o amor é divertido por poder pensar que é para sempre.

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