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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Tiago Rebelo

Relação breve

Não se opõe, pois gosta da sua companhia, mas a noite ocasional passa a uma semana inteira.

Tiago Rebelo 22 de Março de 2015 às 00:30

Mora num pequeno apartamento, típico de jovem solteiro, sem arrumação primorosa, sem qualquer rotina. Os vizinhos não sabem se vive sozinho, se acompanhado. Bem, é possível dizer que normalmente não está só ele no apartamento, com quem é que é mais difícil. Porém, a partir de certa altura os vizinhos notam que já não chega com uma mulher diferente todas as semanas e passam a vê-lo entrar e sair sempre com a mesma.

Inicialmente, ela traz apenas uma escova de dentes para as noites em que fica a dormir, mas quando ele dá por isso já tem mais de metade das suas gavetas repletas de roupa feminina e a casa de banho cheia de frascos que nem suspeita para que servem. Não se opõe, pois gosta da sua companhia, mas a noite ocasional passa a uma semana inteira, e a mais uma e outra e, de súbito, está instalada na vida dele sem terem chegado a conversar sobre isso.

Depois começam as discussões, porque os amigos dele aparecem sem serem convidados, tomam conta da sala e ficam agarrados aos jogos da consola, a beber e a fumar até de madrugada. Ela insurge-se, avisa que não é criada de ninguém, que não está para arrumar o lixo que ele e os amigos fazem nessas noitadas atribuladas. Ele encolhe os ombros: então, não arrumes, diz. Mas como ele também não limpa nada, ela declara que não está para viver num apartamento que parece uma pocilga. Ele volta a encolher os ombros: então, não vivas, diz.

Ela, ofendida, esvazia as gavetas do quarto, recolhe os frascos da casa de banho, enche duas grandes malas, vai-se embora.

Novamente sozinho, suspira de alívio. Fica tão satisfeito por recuperar o apartamento e a independência que até dá uma arrumaçãozinha à sala. Nada de grandes limpezas, só esvaziar os cinzeiros e recolher os copos e os pratos sujos espalhados por ali.

Ela está outra vez no seu apartamento de solteira, em perfeita ordem, em silêncio, sem invasões e confusões. Primeiro é um descanso, mas em breve a solidão começa a pesar-lhe. Alimenta a ideia de que ele a vai procurar e implorar para que volte. Já pensou até nas condições que pretende impor. Mas nada acontece e ela desespera.

No fundo, sabe que não o quer de volta, que nunca seria feliz com ele, contudo, a sua indiferença fá-la sofrer e confundir a dolorosa rejeição com desamparo de amor. Enfim, de qualquer modo, a vida continua e acaba por se conformar com a certeza de que o drama de hoje não lhe merecerá mais do que um vago desprezo daqui a um ano.

crónica de Tiago Rebelo conto história de amor
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