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Tiago Rebelo

Sonhar com o passado

Ele pode ter outras, mas, por alguma razão que não se explica, só a quer a ela

Tiago Rebelo 31 de Maio de 2015 às 00:30

Ele imagina as palavra acertadas para a cativar, pergunta-se o que estará a pensar. Ela anda à roda, presa a um pensamento circular que a impede de se libertar e ser feliz, como deseja. Quer fazê-la feliz, mas não sabe como chegar a ela. E ela tem momentos em que vê nele a esperança de voltar a amar, embora fique paralisada e não lhe permita penetrar na espessa armadura que ergueu para se proteger das desilusões.

Ele surpreende-se com o lamento de um beijo. O lamento dela, entenda-se, quando a beija no final de uma noite quase perfeita, não fosse essa rejeição inesperada. Pede-lhe desculpa, mas não está preparada, afirma, pesarosa. Depois sai do carro e ele fica a vê-la a entrar em casa. Não lhe vê as lágrimas nos olhos, porque ela não se volta. Fica desanimado, a pensar que talvez seja melhor desistir.

Porém, no dia seguinte ela envia-lhe uma mensagem que é quase um pedido de socorro. Apela à sua paciência e promete que vai mudar. Ele pode ter outras, mas, por alguma razão que não se explica, só a quer a ela, de modo que lhe diz para não se preocupar porque não se vai embora. Ela tem o hábito de acordar cedo e ir à praia. Mora perto do mar e gosta de ver o Sol a nascer. Desperta nela a esperança de um dia bom. É um prazer solitário, como quase tudo o que faz. Desce até à beira-mar, molha os pés, senta-se na areia um pouco acima, onde a água não chega, e fica ali uns minutos só seus a reavivar memórias felizes, a sonhar com o passado.


Só dá pela sua presença quando ele já está muito perto. Aproxima-se lentamente e vai sentar--se ao lado dela. O que fazes aqui? A pergunta sai-lhe num tom quase indignado, contrariada por lhe invadir a privacidade. Ele encolhe os ombros, vim ver o nascer do Sol, responde, ignorando o protesto dela.


Ficam assim, em silêncio, de olhos postos no mar, até que ela declara: Eu gosto de acordar cedo. E eu de acordar tarde, afirma ele. Gosto de silêncio, murmura. Eu prefiro estar acompanhado de música. Gosto de cães, diz. E eu de cavalos. Ela não se contém, solta uma gargalhada. Cavalos não são animais domésticos! Depende do tamanho da casa, replica ele. Desatam a rir. Ainda bem que estamos entendidos, diz ela finalmente, temos gostos opostos. Temos gostos complementares, corrige ele. Ela abana a cabeça, a ponderar, sim, pode ser, aceita. Depois a sua mão procura a dele. Custou-te muito acordar cedo? Nem imaginas quanto, diz ele, com um suspiro. Então, ela sorri e deita a cabeça no seu ombro, satisfeita.

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