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Correio da Manhã

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Vanessa Fidalgo

Amores eternos

A história de um galanteador de Sintra

Vanessa Fidalgo 22 de Julho de 2016 às 16:59

Em Sintra, terra pródiga em lendas e histórias de arrepiar, consta que há um lugar no meio da serra onde dois amantes continuam a encontrar-se, pouco se importando que o seu sepulcral amor cause calafrios aos vivos. Pelo menos, é esta a fama que coube em sorte à Quinta da Bela Vista, já longe do fausto de outrora mas agora célebre entre os adoradores do sobrenatural.  

Segundo rezam as vozes do povo - que nestas coisas das lendas têm sempre um fundo de razão -, a propriedade foi erguida entre o final do século XVIII e o início do século XIX para servir de casa de veraneio a um bem-parecido duque de Lisboa com fama de boémio e pinga-amor.

 

Sempre que o estio se impunha no calendário, lá vinha o duque com nova e arrebatadora paixão. Ali passava a estação em festas e tertúlias, passeando de charrete pela vila ou de braço dado com a sua apaixonada. Com sorte, a paixão chegava ao dealbar de setembro. Ou não!  Por vezes, o duque tomava-se de amores por outra a meio da estadia! E quando isso acontecia, não tinha quaisquer problemas em substituir a infeliz preterida na alcova.

 

Mas era tal o ímpeto conquistador do duque, que o corrupio de moças se tornou famoso por aquelas bandas. Contudo, uma delas há de ter sido mais marcante e claramente  mais duradoura que todas as outras…  Contam atualmente os sintrenses, sempre orgulhosos dos seus fantasmas, que há um punhado de anos um certo casal inglês arrendou a mansão à procura de uns dias de sossego. Mas descanso tiveram pouco! Todas as noites, da cave da velha quinta, vinham sons de passos, risos e valsas. Isto acontecia sempre que o sol se quedava no horizonte, e em especial nas noites de brisa morna.

 

Os turistas já eram gente com uma certa idade mas feitos daquela fibra que não se deixa assustar com facilidade. Talvez até já estivessem acostumados a privar com algum fantasma inglês! Um dia, resolveram ir às catacumbas. Desceram as escadas pé ante pé, agarrados um ao outro e com a lanterna em riste, para investigar por conta própria. Foi então que deram de caras com o espectro nebuloso de um casal que rodopiava no ar entrelaçado, ao som de uma valsa de outros tempos...

 

Se moral da história houvesse, poder-se-ia escolher das duas uma: ou há amores que realmente são eternos ou nem o mais galanteador dos homens pode afirmar com toda a certeza que nunca há de deixar prender-se pelo coração… 

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