Em nome do pai

Sérgio Pereira Cardoso

Em nome do pai

"E que, afinal, havia outro, citando aqui a Ágata depois de Shakespeare..."
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Por Sérgio Pereira Cardoso|25.09.16
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Corria o belíssimo ano de 1597 e William Shakespeare escrevia na peça ‘O Mercador de Veneza’ que "sábio é o pai que conhece bem o seu filho". Desconheço se foi dada, na altura, devida razão à frase do personagem Launcelot Gobbo, mas, exatos 400 anos depois, a prova da sua precisão chegou através de um artista do crime que bem tentou tramar o progenitor, acabando ele mesmo atrás das grades.
Tal como a obra do grandioso dramaturgo inglês, e com a mesmíssima qualidade de escrita, esta história real que se passou em Sintra tem também traços tragicómicos. Protagonista: Xavier, um empresário de 29 anos cujos negócios começaram a dar para o torto, virando agulhas para o mundo do ilícito, essa autoestrada para acumular dinheiro, expressão tão em voga por estes dias.
A 21 de fevereiro de 1997, Xavier entrou num aviário de Casal de Cambra e, com 500 escudos na mão, pediu um champô para cães. "Tem preferência?", perguntou-lhe a funcionária. Nem cão, quanto mais preferência. O ladrão ainda ponderou arriscar numa potencial marca, como ‘Cãotene’ ou ‘Vidog Sassoon’, mas decidiu ir diretamente ao assunto, guardando a nota e puxando de uma pistola. "Isto é um assalto", esclareceu.
A mulher lá entregou os 600 contos [3000 €] que havia em caixa, fugindo o rapaz num aparatoso Rover vermelho, que seria avistado, logo a seguir, a passar na Portela de Sintra. Com acesso à matrícula, as autoridades rapidamente chegaram ao proprietário do veículo - um senhor de alguma idade, que ficou em pânico com a abordagem da GNR. "Sim, o carro é meu, mas juro que não fui eu", tremelicou, lembrando-se logo do filho, mais dado a essas coisas de roubos e burlas, já com um julgamento marcado e tudo. "Eu emprestei-lhe o Rover, mas ele devolveu-mo há três meses. Está aqui na garagem, ó", mostrou. E estava. É que, afinal, havia outro, citando aqui a Ágata depois de Shakespeare.
Havia outro carro, entenda-se. O jovem criminoso tinha aproveitado o período em que o pai lhe cedeu o automóvel para tirar fotocópias aos documentos, mandando também fazer matrículas iguais. De seguida, assaltou um stand em Campolide, furtando uma viatura exatamente igual, na qual colocou as tais matrículas. Ou seja, eu assalto e o meu pai vai preso. O filho do ano.
No mesmo dia, Xavier seria encontrado, junto ao - segundo - Rover, pela GNR, na rua de S. Lourenço, em Lisboa. Puxou da potente pistola, que afinal era só de alarme, sendo logo detido. Sem jeito para os negócios, muito menos para o crime, Xavier teria tempo na prisão para pensar no que ser, ou não ser. Eis a questão.
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