Victor Bandarra

Jornalista

A tortura não funciona

05 de fevereiro de 2017 às 00:30
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Os avós, anarco-sindicalistas, andaram nas lutas e conspirações da Primeira República. Mário, treinado a impor-se silêncio, cresceu com um insolúvel trauma. Na adolescência era por natureza irreprimível, galhofeiro e palrador, características nada propícias a quem, por tradição   familiar,   se   dedicava   à   conspiração. Adorava contar piadas e gargalhava por tudo e por nada. Por exemplo: passou horas a descrever a cara aparvalhada do chefe da estação da CP onde apareceram impressas a tinta, no chão da plataforma, palavras de ordem do Reviralho contra o governo de Salazar. Havia sido o imberbe e insuspeito Mário a transportar a mala, cujo fundo exterior era um imaginativo carimbo. E de cada vez que a mala, supostamente pesada, era largada no chão pelo rapazito, lá ficava o carimbo anti--fascista. Uma ideia genial.

Mário cresceu e enfrentou um outro problema:   o   medo.   Mário,   ainda   que   moralmente convicto, era incapaz de aguentar a dor, a dor física. Já adulto, por ironia fingida, pedia aos companheiros: "Não me contem segredos! Se um pide me aponta um cigarro aceso, confesso logo tudo!". E assim se fez. Mário foi sendo encarregado de pequenas tarefas clandestinas, sem nunca saber exactamente o alcance mais profundo e prático da   missão.   Um   dia,   aconteceu:   Mário   foi preso. À entrada na cela, vieram-lhe à cabeça as descrições de tortura de muitos que por lá passaram - a "estátua", os choques eléctricos, a simulação de afogamento.

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Por despudorada hipocrisia, nunca em Portugal   se   ouviu   um   político   do   Estado Novo, muito menos Salazar, justificar a tortura da Pide. Oficialmente não existia.

O despudor de Trump ultrapassa tudo. Na primeira entrevista, defendeu alto e bom som as tácticas de tortura, a começar pelo afogamento simulado. Diz ele que "a tortura   funciona".   É   crença   popular   em   muito lado que a tortura funciona - os "maus" acabam por contar tudo. Nesse dia, na prisão, amedrontado,   Mário   sentiu-se   perdido. Quando   lhe   começaram   a   bater   e   a   fazer perguntas, Mário berrou alto e encolheu-se todo. Confessou. Confessou nomes, acções, locais, tudo. Quando avançaram para a tortura da "estátua" confessou ainda mais. Esta semana, um relator da ONU explicou que a tortura   é   conhecida   por   produzir,   quase sempre, "confissões falsas, informações não confiáveis ou enganosas". Mário, por medo e ignorância, contou apenas o que lhe veio à cabeça. Mentiu. A tortura não funcionou.

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