A obra é feita aos bocadinhos, para que cada operário não se aperceba de que nunca será acabada durante a vida de um homem. Assim, os trabalhadores nunca perdem o entusiasmo pela sua construção. Milhões de operários crentes de que obra há-de ser suficiente para suster a entrada dos inimigos do Norte. Em narrativa circular, ambígua, kafkiana, assim Franz Kafka escreveu o conto ‘A Grande Muralha da China’.-lhe até "o maior cemitério do Mundo". São, ou foram, 6450 quilómetros de muro alto, ideia chinesa para suster as vagas de nómadas mongóis e os hunos de Gengis Khan.
Na realidade, a Muralha da China foi construída ao longo de dois mil anos e nela pereceram muitos milhares de trabalhadores. Chamam-
-lhe até "o maior cemitério do Mundo". São, ou foram, 6450 quilómetros de muro alto, ideia chinesa para suster as vagas de nómadas mongóis e os hunos de Gengis Khan.
Pela Europa, por enquanto, o projecto é mais modesto. A Hungria quer fazer um muro de apenas 200 quilómetros. A ideia, militar, é impedir a entrada de milhares de refugiados, desesperados do Sul, a que muitos insistem em chamar, eufemisticamente, "migrantes" ou "clandestinos".
E o Mundo e a Europa a verem tudo, graças a uma invenção chamada "telemóvel", que inclui câmara de vídeo. Bem apontava o meu amigo Zé dos Pneus que foi por obra do telemóvel que milhões viram Kadafi a ser linchado pela turba, em 2011, depois de o seu carro ser atingido pelos aviões da NATO. Foi também graças ao telemóvel que milhões viram Saddam ser enforcado, Alcorão nas mãos, por alturas do Natal de 2006. O Zé, que deu emprego a brasileiros e ucranianos, brincava com a história dos muros, da China a Berlim, de Alcântara ao Alto da Ajuda.
"Nunca foi o muro que me impediu de ir aos figos e às laranjas do quintal da vizinha..." Não se entenderam pelo Mundo Ocidental os sinais de Lampedusa, quando os italianos da ilha começam a sentir, olhos nos olhos, o apelo e a determinação dos invasores desarmados, tantas mulheres e crianças. O então líder europeu, Durão Barroso, é apupado durante a visita-de-médico à ilha, em 2013. Escutam-se gritos europeus – "vergonha" e "assassinos".
Apenas dois anos depois, o europeu Hollande é obrigado a conceder a Legião de Honra a três rapazes americanos que saltaram em cima de um marroquino armado, emigrante e não refugiado, num comboio europeu. A ideia da grande muralha é chão que começa a dar uvas. Um grande muro à volta da Europa faz sonhar governantes, construtores civis, porventura operários.Imagina-se os governos e as grandes construtoras metidas num negócio de muitos milhares de quilómetros de betão, do Cabo da Roca à Polónia, 30 vezes a Muralha da China. O pesadelo, para os amantes de muros, é que os mongóis ultrapassaram a Muralha da China e Gengis Khan até conquistou a Hungria.
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