Os regimes democráticos são muito imprevisíveis. Maroto, bochecha arrebitada, assim falava o meu amigo Zé dos Pneus que, a cada eleição, ameaçava nunca mais ir botar o papelinho na urna.
"Prefiro ir pedir o pão por Deus!"
Tal como o Presidente Cavaco, indignava-se ele com essa coisa de "um voto por cada cidadão". Por que carga de água é que o seu voto de empresário trabalhador havia de valer tanto como o do analfabeto atoleimado, do comunista empedernido ou do viciado em gamanço de carteiras?! Benfiquista votante, defendia o Zé que as eleições para o Parlamento deviam ser feitas como as eleições para os clubes de futebol.
"Os sócios mais antigos e preparados devem ter direito a mais votos!"
Brincalhão a puxar ao sério, saberia ele que já foi assim noutros tempos e em alguns regimes? Certo é que acabava a defender a Constituição, proclamando que, em democracia representativa, os cidadãos até têm direito a escolher os seus próprios ditadores.
Na onda de dissertações pós-eleitorais, os mais cultos citam agora Camões, e os com ouvido para a música trauteiam José Mário Branco: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...". Indiferentes a estas politiquices, comerciantes e homens de negócios aliam-se democraticamente aos mais novinhos na doideira pelo Halloween que, depois da Coca-
-Cola e do Pai-Natal, é uma das maiores exportações das democracias representativas do Ocidente mais a Norte. Uma tradição celta pagã que deu para se vestirem as crianças de bruxas e vampiros, que los ya por aqui, exigindo "doçuras ou travessuras". Coincidência ou não, o terramoto de 1755 aconteceu a 1 de Novembro, Dia de Todos-os-Santos na tradição cristã. Um ano depois, ainda deambulavam por Lisboa milhares de desgraçados sem eira nem côdea para manducar. E vai daí, o povo gritava ou sussurrava por "pão por Deus!" Mudaram-se os tempos, perduraram as memórias.
Ainda há poucas décadas andavam os miúdos de porta em porta, sacola de pano, sem máscaras ou fatos carnavalescos, pedindo o "pão por Deus" de cara ao léu e varridos democraticamente a doces, nozes ou tostões. Aos poucos, o Halloween matou o "pão por Deus" e muitos começaram a acreditar em bruxas. Mas as troikas dos regimes democráticos, sobretudo os que têm sede em Bruxelas, são mesmo muito traiçoeiras. Em poucos anos, puseram muitos portugueses, crianças e adultos, a pedir discretamente o "pão por Deus", puro e duro.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt