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Victor Bandarra

Como é diferente o Natal em Portugal

O velho ganhou bom dinheiro por conta do negócio de padarias, em São Paulo.

Victor Bandarra 8 de Janeiro de 2017 às 01:45
Maurício, nascido transmontano nos idos de 40 do século passado, chegou ao Brasil com 10 anos, de socas e mala atada com um cinto esfarelado. Um tio "brasileiro" abraçou-o à homem e explicou-lhe os direitos e deveres de trabalhador comensal em sua casa. Aconteceu a Maurício e a milhares de compatriotas, do escritor Ferreira de Castro ao empresário Valentim Diniz, que aportou ao Brasil em 1929, abriu uma pastelaria chamada Pão de Açúcar e fundou um império de negócios.

A caminho dos 80 anos, Maurício decidiu vir passar o Natal deste ano a Portugal. O velho ganhou bom dinheiro por conta do tradicional negócio de padarias, em São Paulo. Os filhos, visionários, alargaram o ganha-pão à camionagem e ao import-export. Ao longo da vida, ‘seu’ Maurício regressou amiúde à aldeia-natal. Mas uma briga de partilhas com a irmã, Laurinda, levou-o a vender a sua parte e a jurar não mais pisar a terra dos ancestrais. ‘Seu’ Maurício aterrou no Porto acompanhado por um neto, Marcelo. Instalam-se em hotel de charme junto ao Douro.

A ideia é passar a Consoada em casa de uns amigos, empresários portuenses. Mas Marcelo, sem nunca ter pisado terras de Trás- -os-Montes, insiste com o avô para uma saltada à aldeia. A custo, ‘seu’ Maurício acede. Carro alugado, mal chegam à vila, o céu de chumbo e o frio de rachar concedem a Marcelo presente inesperado e nunca visto: neve. O rapaz guincha de alegria. "Vovô! Está nevando! Que bonito!" Maurício, carrancudo, resmunga. "Estou vendo!"

A neve cai como há muito não se via. Encurralados, deixam a ida à aldeia para depois. No restaurante da vila, avô e neto avançam para a posta mirandesa. Marcelo exultante, Maurício pensativo. Ao fim da tarde, o dono aconselha a ida à aldeia para melhor altura. "Dormem cá. Amanhã logo se vê."

Maurício queda-se à janela, mirando a neve, cismando. O homem da casa, deferente, é levado pela curiosidade. "O senhor não é o irmão da Ti Laurinda!? O do Brasil?!" Marcelo responde pelo avô. "É sim senhor! Voltámos à terrinha!" Já escuro de breu, Maurício veste o casaco e, tiritando, dá uma volta pelo largo em frente. Quando volta à lareira, ordena ao neto. "Amanhã voltamos para o Porto e vamos passar o Natal ao Rio!" Marcelo questiona-se. "Mas porquê, vovô?" Maurício condescende um sorriso. "Minino! Não acha que é muito melhor um Natal na praia!?"

Mais tarde, a sós com o dono do restaurante, Maurício explica-se melhor. "A minha irmã morreu, já morreram todos..." E num gesto desalentado. "Ainda me lembro da neve e do frio que passei lá na aldeia..."
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