Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
5
Conteúdo exclusivo para Assinantes Se já é assinante faça LOGIN Assine Já
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Victor Bandarra

Confinados e mal pagos

Serviu-lhe sempre de lição a vigarice do ‘passador’.

Victor Bandarra 9 de Maio de 2021 às 00:30

Semblante duro, pele gretada pelo tempo, parco em palavras e sorrisos, Jorge é um beirão dos antigos, que se fez à vida e suou as estopinhas pela França dos anos 60. Foi e voltou com alguns cabedais, à custa de muito sobe-e-desce com baldes de cimento pelos arranha-céus em construção nos arredores de Paris. Agora em Lisboa, segue de cenho franzido as notícias sobre homens de cara tapada, alguns de turbante, que fogem às câmaras da TV no concelho de Odemira. O velho escuta os comentários de filhos e netos sobre os imigrantes cercados na freguesia confinada de S. Teotónio. Vêm de países longínquos como Índia, Nepal ou Bangladesh. Os netos, bem na vida, indignam-se. "Vivem uns em cima dos outros! Um apanha a Covid e vai a eito! E os portugueses é que se lixam!" E insistem. "É preciso que façam confinamentos e cercas sanitárias! Ou então mandem-nos já todos embora!" Jorge dá um murro no joelho. "Tenham vergonha! Vocês sabem lá o que é viver preso e cercado! Eu sei!" Silêncio de curiosidade. Jorge solta a memória até ao dia em que o pai lhe entrega um pequeno molho de notas de escudos. "Rapaz! Sei que estás danadinho para dares o salto! Boa sorte!" Jorge agradece e o pai fica com menos uma boca para sustentar. Jorge pula para a carrinha de caixa fechada, paga ao "passador" e junta-se ao grupo de homens que se encolhe em silêncio. Vão "a salto" para França. Hão-de ser umas 24 horas fechados; primeiro até Espanha, e depois o grande pulo até França. Ainda meio enjoados, trementes de frio, são descarregados num descampado. A uns 100 metros, lá está a placa: "França". O "passador", impaciente, dá ordens. "Vá! França é logo ali! Corram! Tenho de me ir já embora!" Jorge corre e descobre rapidamente que está em... França, freguesia do concelho de Bragança. Haviam sido enganados. Mas Jorge não desiste e acaba por chegar à França país, meses depois. Serviu-lhe sempre de lição a vigarice do "passador".

Face às centenas de imigrantes amontoados em Odemira, Jorge explica que era assim, talvez pior, nos bairros-de-lata de Paris. "Estávamos confinados. Era barraca-trabalho, trabalho-barraca!" E porquê? "A maioria estava ilegal! Não podíamos circular! Mas havia trabalho!" Jorge sabe que todos estes "saltos" de seres humanos, ontem como hoje, são ditados pelas redes que os colocam onde há falta de mão-de-obra. Jorge coça a cabeça. "É como dantes! E nunca aparecem os nomes dos patrões nem dos passadores!

Exclusivos

Assinatura Digital

Acesso sem limites em todos os dispositivos Assinatura válida na APP Correio da Manhã Newsletters exclusivas E-paper antecipado no Quiosque Ofertas e descontos do Clube CM+
Assine já! 1€ no 1º mês
Ver comentários
Hoje nas bancas
Capa do Dia
A primeira página do Correio da Manhã e o acesso ao e-paper Ver todas as
primeiras páginas
CM+
O Correio da Manhã para quem quer MAIS conteúdos e vantagens
Assine já 1 mês/1€
  • Todo o conteúdo exclusivo sem limites nem restrições.
  • Acesso a qualquer hora no site ou nas apps.
  • Acesso à versão do epaper na noite anterior.
  • Clube CM+ com vantagens e ofertas só para assinantes