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Victor Bandarra

A arte de perguntar

É verdade que um jesuíta responde sempre a uma pergunta com outra pergunta?

Victor Bandarra 3 de Dezembro de 2017 às 00:30
Supõe-se que nenhum padre jesuíta participou na sessão na Universidade de Aveiro em que António Costa respondeu a perguntas feitas por um grupo escolhido de perguntadores. Os jesuítas, com o Padre António Vieira à cabeça, desenvolveram e burilaram a arte da oratória e da persuasão, da pergunta e da resposta, a que Costa deveria prestar devida atenção. Costa, mais do que saber responder, deve saber perguntar. Questionava Vieira no célebre sermão da Sexagésima: "Se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?" Auditório agarrado, Vieira respondia a seguir. E conta-se o célebre episódio do jesuíta a quem perguntaram: "É verdade que um jesuíta responde sempre a uma pergunta com outra pergunta?" Resposta pronta do padre: "E porque não?"

Padres, políticos e jornalistas deveriam aprender mais a perguntar. Ouvintes, eleitores ou crentes deveriam atentar mais nas perguntas. Algum leitor, internauta, tele-espectador ou ouvinte reteve alguma das perguntas dos perguntadores de Aveiro? Poucos ou nenhuns. E das resposta de Costa? Ainda menos. Da história da sessão de Aveiro (legítima, científica e supostamente séria), sobrou apenas a ideia (anedótica) de uns quantos euros que foram pagos aos participantes. Perguntas inteligentes e bem focadas provocam o interesse de quem escuta, quantas vezes mais do que as respostas. Hoje, pelos colóquios e debates, usa-se e abusa-se do termo "problematizar". Problematizar é simplesmente fazer boas perguntas. No tempo da colonização espanhola da América do Sul, pergunta um jesuíta a um índio muito ferido e maltratado pelos castelhanos. "Preferes ser salvo e ir para o Céu, ou recusas a salvação e vais para o inferno?" O moribundo, ultrapassando a lógica jesuítica, responde com outra pergunta. "Existem espanhóis no Céu?" O padre assente. "Sim, com certeza!" Ao que o índio responde. "Então, para o inferno, já!" O jesuíta sorri. Com o seu método coloquial, havia aproveitado para condenar também, indirectamente, a governação espanhola.

Em Portugal, a arte de perguntar (tão cara ao Jornalismo) anda pelas ruas da amargura. Há uns tempos, no final de um jogo da Primeira Liga, um brasileiro recém-chegado faz um jogão e é chamado à zona de entrevistas televisivas. O repórter, senhor da nova escola de discorrer sobre os acontecimentos, começa mais ou menos assim: "Um golo, exibição convincente, está de pedra e cal no plantel..." e por aí fora, de considerando em considerando. Quando o português lhe estica o micro, o brasileiro (provavelmente com sangue índio), responde à jesuíta. "É isso aí! Mas... qual é mesmo a pergunta?" Não teve resposta.
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