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Victor Bandarra

A árvore eleitoral

Contabilizados os votos, José Joaquim deu um murro na mesa.

Victor Bandarra 24 de Setembro de 2017 às 00:30

José Joaquim, emproado lavrador de aldeia nortenha, foi durante dois mandatos presidente da Junta de Freguesia local. Independente pelas Direitas, senhor de vasta prole, contabiliza sete filhos e 23 netos. Com ele, alinham ainda seis irmãos machos, mais três cunhados - todos progenitores de numerosa descendência. Foi sempre um cacique à antiga, o cabeça mandante e pensante da grande família. Controlador de sobrinhos e sobrinhas, primos e primas, e também dos ‘seus’ assalariados à jorna, José Joaquim sempre se gabou de mandar em exactamente... 164 votos. A cada eleição, no universo de uns 350 eleitores, José Joaquim pôde galhofar dos conterrâneos opositores. E até fez apostas com os apaniguados. "Lá se foi o meu tio-avô! 93 anos! Este ano, vou ter só 163 votos..." Tiro certeiro.

José Joaquim treinou o filho mais novo, Francisco, universitário no Porto, para nova e promissora geração de caciquismo rural. Homem interessado, o velho fez sempre gala em dissertar e explicar aos seus o que é uma ‘árvore genealógica’. Coçavam-se cabeças e abriam-se bocas de espanto sempre que José Joaquim soltava tiradas de lógica avançada. "Porque é que só se lembram do nosso bisavô que foi regedor na vila?! Então e o outro? O que foi desterrado para África?! E o borra-botas do avô Pinguinhas?!" E discorria impante sobre a insofismável verdade de todos terem dois avôs e duas avós, quatro bisavôs e quatro bisavós, oito trisavôs e oito trisavós, e por aí fora. "É a árvore que faz uma família! E é a árvore que nos faz ganhar eleições! E não só eleições..."

Nas últimas eleições, José Joaquim fez-se de novo ao voto e à presidência. Do outro lado, saltou como concorrente um jovem cheio de genica, professor regressado à terra. Discretamente, o rapaz foi angariando apoios e promessas. Insinuante, infiltrou-se em território ‘inimigo’, ao namoriscar uma neta de José Joaquim. Tudo dentro da maior discrição, com umas saltadas ao Porto para jantar romântico e pezinho de dança. Na aldeia, entre os dois, apenas uns "como é que vai isso, miúda?" e uns "na maior, professor!". Conversas corriqueiras e adequadas, apesar de o universitário seu tio começar a desconfiar das surtidas da rapariga ao Porto.

Na campanha eleitoral, José Joaquim avançou com os périplos do costume pelas casas habituais. Por fim, reuniu a ‘árvore genealógica’ para auscultar e industriar a família. Contas feitas, a vitória afigurou-se-
-lhe difícil mas certa. No domingo de eleições, contabilizados os votos, José Joaquim deu um murro na mesa."Não pode ser!
Perdi!" Exigiu recontagem. "Ó Sr. José Joaquim! Está certo! São 162 votos! O professor tem 163..." De repente, vêm-lhe à cabeça as insinuações cautelosas do filho estudante. Estrondoso pontapé na mesa. "Ai que a cabra da minha neta me roeu a corda!"

Texto escrito na antiga ortografia

Pinguinhas Sr. José Joaquim questões sociais
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