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Victor Bandarra

A IURD sai mais cara...

Há hoje mais de 2000 igrejas/seitas em Angola, umas legalizadas, outras a aguardar reconhecimento pelo Estado.

Victor Bandarra 24 de Dezembro de 2017 às 00:30

Orlando é um português desenrascado, desbocado e solidário. Nasceu em Angola, fez pela vida no Brasil e voltou à sua Luanda natal para sedimentar um negócio de família. "Aqui na banda está-se bem!" Mora num espaçoso apartamento da baixa, mas calcorreia os musseques (bairros pobres da periferia) como se estivesse em casa. Mariquinhas, originária do musseque Rocha Pinto, é a sua empregada doméstica de confiança. A mulher tem duas filhas adolescentes. Orlando paga-lhes os estudos e proporciona-lhes algumas mordomias.

Há uns meses, Orlando quis fazer uma surpresa de aniversário à mais novinha. Com um amigo recém-chegado de Portugal, enche o jipe com mimos - queijos e fiambres, bolos e batatas fritas, colas e sumos, até uma garrafa de espumante do melhor. A ideia é ir buscar as miúdas à escola e levá-las a casa, no Rocha Pinto, onde vai acontecer uma festinha com os amigos das raparigas. Orlando fala pelo telemóvel (toda gente tem telemóvel).

"Alô miúda! Vou pegar-vos aonde? À escola?" Fica a saber que as duas irmãs estão do outro lado da cidade, na esquina de qualquer-coisa com não-sei-onde. "Ai ai! Andam a laurear a pevide!" Na esquina combinada, lá estão as duas adolescentes, aprumadinhas e saltitantes. "Tio! Precisamos passar ainda pela igreja?" Agnóstico dos sete costados, Orlando nunca foi em conversas de padres ou pastores. "À igreja?! A fazer o quê?!" A aniversariante explica que têm de ir pagar o dízimo ao pastor da Igreja do não-sei-quantos, uma das centenas de igrejas evangélicas que proliferam que nem vírus por toda a Angola.

Orlando indigna-se. "Suas tontas! Andam a encher o bandulho ao filho da p. do pastor?!" Segue-se um chorrilho de ralhetes, com uns quantos palavrões à mistura.Os angolanos (por herança dos povos bantus) são gente de uma enorme religiosidade.

Gente de fé, esperança, caridade e... superstição. Há hoje mais de 2000 igrejas/seitas em Angola, umas legalizadas, outras a aguardar reconhecimento pelo Estado. João Lourenço prometeu concluir e aplicar rapidamente a legislação sobre a liberdade religiosa no país. Em Luanda, tropeça-se em igrejas a cada esquina, em cada bairro, em cada musseque. Umas são simples barracões com umas dezenas de fiéis; outras, como a IURD, autênticas empresas de fabricar milagres e kuanzas.

Orlando percebe que não consegue convencer as miúdas a deixar a igreja. E tem uma ideia. "Porque é que não vão antes àquela igreja grande, mesmo ao lado da minha casa?!" Resposta pronta. "À igreja da IURD?! Não dá! Sai muito mais cara do que a nossa...

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