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Victor Bandarra

A honradez da verdade

Era um regalo vê-los a dissertar à compita, o José e o David.

Victor Bandarra 15 de Fevereiro de 2015 às 00:30

Começavam sempre pela arte de bem comer, avançavam pelos meandros da História, da Literatura ou da Poesia, e perdiam-se pela Geografia das terras, das gastronomias e das vidas, bebericando um tinto enquanto petiscavam qualquer coisita, antes da inevitável refeição de sustança.

O José, goela tonitruante e óculos garrafais, e o David, suave sussurro na face barbuda de Pai Natal, banqueteavam-se (também) de conversa e presenteavam os amigos com uma imensa, honrada e inocente sabedoria sobre tudo o que a terra dá e o homem amanha e transforma. Eram a prova provada de que Pepe Carvalho, a personagem de Manuel Vázquez Montalbán, sabia do que falava: "O único saber inocente é o gastronómico, a única forma de cultura que merece a pena respeitar." Nesta coisas de comidas, o meu amigo Zé dos Pneus é muito mais brejeiro: "Comer são… as duas melhores coisas da vida!"

O David Lopes Ramos já lá está, no Olimpo dos homens bons. O José Quitério vai aguentando a perda de amigos com a lucidez dos que vêem mais longe, ele que deixou de escrever a sua crónica semanal sobre gastronomia, no ‘Expresso’, por causa de um problema de visão. É perda irreparável deixar de saborear a prosa fina e burilada do Quitério. Ele que sempre disse que sushi não é cozinha, que bife na pedra não é gastronomia e que o foie gras é uma "maravilha civilizacional". No outro dia, ouvimo-lo a desancar as comidas de plástico e os modismos de alguns chefs armados ao pingarelho.

Homem de ética e de cultura, o Quitério  cultivou  sempre  o anonimato nas suas deambulações pelos pequenos e grandes santuários da cozinha portuguesa. De um frontalidade desmesurada, coleccionou admirações e invejas. Gente de respeito propôs o seu nome para o Prémio Universidade de Coimbra 2015. José Quitério ganhou, a bem da Cultura e da Gastronomia.

E  hoje,  ocorre-me  recordar uma viagem atribulada por várias das ilhas dos Açores, jornalistas e escritores à mistura, há mais de duas décadas. À chegada à Horta, um admirador forasteiro  que  o  reconheceu achou por bem meter conversa. "Ó sr. Quitério! Onde é que se come bem aqui no Faial?"

Ainda agastado pelo enjoo da viagem,  Quitério  soltou  a  voz avassaladora.  "Ó  homem!  Eu sei lá onde é que se come bem aqui!  Ainda  agora  cheguei!" Premiado após mais de 40 anos de crítica e de escrita, José Quitério, tal como naquele dia no Faial, limita-se a dizer: "O meu único propósito foi servir o leitor e a gastronomia com verdade e com honradez!"

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