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Victor Bandarra

A lição do Chef

Eliseu Amaro partiu novo para França. Por lá conheceu os grandes do mundo.

Victor Bandarra 31 de Maio de 2015 às 00:30

Pelo fresquinho da tarde, Chef Eliseu relaxa na esplanada do seu restaurante de Mogadouro, no planalto mirandês. Barrete e jaleca branca de cozinheiro, dá dois dedos de conversa com os novos imigrantes na terra. Este transmontano de olho azul junta à mesma mesa Bir, o hindu da Índia, e os irmãos Ali, muçulmanos do Paquistão, aventureiros na Europa por força da grande guerra pela sobrevivência. Chef Eliseu disserta sobre as artes de bem confeccionar o rosti de batata ou a estrondosa posta mirandesa. Os imigrantes, por culpa das respectivas religiões, são esquisitos em matéria de carnes.

Mas batatas é com eles. De quem nunca ouviram falar é de personagens como André Malraux ou Georges Pompidou. Nem sequer o nome de Brigitte Bardot lhes diz o que quer que seja. Os rapazes asiáticos apenas sorriem quando Chef Eliseu lhes fala de um tal imperador Hirohito. 


Eliseu Amaro partiu novinho para França. Estudou gastronomia na École Ferendi e alcandorou-se a chef de cozinha do mítico restaurante Le Grand Veneur, nos arredores de Paris. Por lá fez carreira, por lá conheceu os grandes deste mundo. Chegou várias vezes à  fala com André Malraux, escritor e pensador. Chef Eliseu, graças à sua arte gastronómica, conhece bem o significado da máxima de Malraux: "Toda a Arte é uma revolta contra o destino do Homem!"

O destino levou-o a íntimas conversetas com presidentes franceses como Pompidou ou Chirac, e até a sorrisos de cumplicidade com a grande BB, quando a Bardot se fazia acompanhar ao restaurante por jovens bonitões. Conta Chef Eliseu que Bardot gostava de fazer graça com dois seixos de praia, fazendo-os roçar um no outro enquanto pestanejava frente ao parceiro de ocasião. Bons tempos em que teve a honra de servir o imperador japonês Hirohito, de olhos baixos e com muita deferência, como pedia o protocolo. E era a ele que o patrão confiava a chave da imensa garrafeira do Le Grand Veneur, avaliada em muitos milhões de euros.


Certo dia, Eliseu voltou à sua Mogadouro. Voltou requintado, sabedor de segredos gastronómicos, palato afinado pelos grandes crus de Bordéus e da Borgonha e confidente de várias figuras imortais. Abriu a sua Lareira e passou a zelar pelo bem-estar dos corpos e das almas que lhe entram porta adentro. Chef da Alta Cozinha francesa, Eliseu é homem de fino trato e refinada modéstia. E é com sinceridade que desabafa com Bir e com os Ali: "Eu sei o que é ser emigrante! Como eu vos compreendo, meus caros senhores!" Os forasteiros sorriem. Pena que Bir nunca venha a provar a posta mirandesa de  Chef Eliseu. Para ele, hindu, as vacas são sagradas.

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