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Victor Bandarra

Adriano, testemunha em Fátima

Homem de fé, sempre acreditou que a Senhora "mais brilhante do que a luz" apareceu mesmo na Cova da Iria.

Victor Bandarra 14 de Maio de 2017 às 00:30

Barrete na cabeça, apoiado num cajado, Adriano avança pelo enorme recinto rumo à basílica de Fátima. Vai nos 90 e tal anos. Nasceu em 1897 na aldeia de Casais dos Vales, Alqueidão da Serra, ali uns quilómetros à frente. Estamos no início dos anos 90 do século passado. Adriano é figura camponesa, testemunha in loco da história dos três pastorinhos. Em 1917 tinha 20 anos, não era nenhuma criança. E (também) era pastor. Aos dias 13, de Junho a Outubro, lá foi ele, mais uns milhares, assistir às propaladas conversas de Lúcia, Jacinta e Francisco com Nossa Senhora. Adriano, homem de fé, sempre acreditou que a Senhora "mais brilhante do que a luz" apareceu mesmo na Cova da Iria. De volta ao local onde não ia há anos, Adriano abre olhos e boca de espanto. "Isto é que vai por aqui um progresso!" Na verdade, Fátima cresceu muito, em cimento e pessoas, desde os tempos em que Adriano pastava cabras em Casais dos Vales. Pelo contrário, a sua aldeia pouco cresceu desde 1917. E será que Adriano acredita nas aparições da Senhora? "Eu cá não vi nem ouvi nada! Mas tenho fé!"

Nos anos 80, o padre espanhol Óscar Quevedo, jesuíta como o Papa Francisco, veio a Portugal desmascarar os supostos milagres que se desenrolavam nas Filipinas, onde uns marmanjos vigaristas diziam extrair tumores só com as mãos, a sangue frio. Muitos doentes portugueses, desesperados e cheios de fé, esportularam fortunas para irem às Filipinas. O padre Quevedo, especialista em parapsicologia, ostentava estilo à moda do papa Francisco: maneiras de franciscano, pensamento de jesuíta. E chocou muitos católicos ao garantir, sem peias, que "Nossa Senhora não aparece; o que aconteceu em Fátima foram visões!" Têm explicado teólogos que há visões, a exemplo de Fátima, que "implicam a representação de uma entidade sobrenatural, como Nossa Senhora, sob forma perceptível aos sentidos!" Daí chamarem "videntes" aos pastorinhos.

Fátima transformou-se em fenómeno de fé e espiritualidade. Realidade palpável e, por força dos homens, tornou-se também negócio de vendilhões do templo. Naquele dia, Adriano aproximou-se da Capelinha das Aparições e da azinheira. Confirmou que, em 1917, o Sol brilhou forte, de repente, por entre as nuvens que se afastavam a galope. É o famoso "milagre do Sol". Um funcionário do Santuário insiste com o velho. "Foi só isso?! Então não começaram a cair umas pétalas de rosa?!" O camponês não se desmancha. "Poucas... muito poucas!" E, alçando o olhar para as imponentes construções à volta, desabafa. "Tivemos azar! Se Nossa Senhora calha a aparecer um bocadito mais à frente, lá em Casais dos Vales, isso é que tinha sido um progresso para a terra!"

Religião Fátima Pastorinhos Aparições
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