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Victor Bandarra

Bite quê?

Criou uma pequena corte de setentonas como ele, que lhe elogiam a caligrafia, a cultura, a ironia e até as brejeirices.

Victor Bandarra 21 de Maio de 2017 às 00:30

Adelino gaba-se de uma 4.ª classe "bem tirada". Ostenta caligrafia primorosa, corrida, desenhada. Na primária, caprichou nas contas, na geometria e na gramática. Teimoso, ainda coloca acentos graves à moda do antigamente. Caso de ‘ràpidamente’. E como seu pai era do tempo de Sintra com C, finge que se engana e, quando lhe pedem "local e data", lá escreve ‘Cintra’.

Adelino criou uma pequena corte de setentonas como ele, que lhe elogiam a caligrafia, a cultura, a ironia e até as brejeirices. Viúvo sem filhos, Adelino está atento ao mundo e às notícias. E dá-lhe ganas de estrafegar alguém quando começam com os ‘estrangeirismos’, tipo ‘offshore’, ‘site’ ou ‘hackers’. A alguns tira-lhes o significado pela lógica envolvente, mas a maioria é apenas "chinês para português ver". Quanto às informáticas, garante entender umas coisas, sem perceber patavina. Como ele, muitos milhares de portugueses ficam na mão de filhos e amigos quando se trata de enviar o IRS, marcar uma consulta médica ou contactar a Segurança Social. Problema que não atinge quem tem carcanhóis para contratar profissionais à altura de fintar o Fisco ou tratar das contas bancárias.

Esta semana, Adelino e o grupo de amigas acompanharam, no café do costume, o ataque informático mundial que apanhou (também) várias empresas portuguesas. E escutaram na rádio notícias do género: "por questões de segurança faça power-off ao seu PC Windows" ou "em alguns computadores, começam a aparecer pop-ups a pedir bitcoins". Silêncio de ignorância no grupo. Adelino, atrevido, explica tudo às amigas. "Hackers são uns gajos que arrombam computadores..." Um bruaá de espanto. "E nem precisam de pé-de-cabra..." O pior é quando surge a informação de que os ‘hackers’ pedem "um resgate em bitcoins!"

Adelino inventa pressa de ir ao barbeiro e promete explicação completa ao fim da tarde. Um sobrinho modernaço é o auxiliar de serviço. Adelino fica a saber que ‘bitcoins’ é ‘dinheiro virtual’. Mais: há plataformas para compra e venda desta moeda digital. A ‘bitcoin’ chegou a superar, pela primeira vez, os 1800 dólares, uma valorização de quase 90 por cento. Os ‘hackers’ do ataque pedem resgate de 300 dólares em ‘bitcoins’ a cada utilizador. Adelino finge perceber tudo. E corre a explicar às amigas:"Bitcoins são notas que não se vêem, mas que se podem esconder e guardar num computador!" Uma das senhoras abre muito os olhos. "E pode-se pagar a luz com essas bitcoins?" Adelino engasga-se e desvia a conversa. Prova de que os info-excluídos já passam muito pior do que os analfabetos de antigamente.

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