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Victor Bandarra

Desunião de facto

Josefina acredita que a Grécia "ainda acaba por pedir o divórcio".

Victor Bandarra 28 de Junho de 2015 às 00:30

Josefina e Gervásio, alentejanos do interior, juntaram os trapinhos e iniciaram laborioso processo de procriação de um rancho de filhos em regime de coabitação e solidariedade. Nunca oficializaram o casamento. Custava dinheiro e só dava chatices. E assim se foram passando os anos, por entre fomes e pequenas farturas, até que a Revolução de Abril abriu portas a inusitadas leis. Nos anos 80, as ‘uniões de facto’ tomaram letra de lei.

Configuraram-se finalmente regras para velhas relações de amiganços e amancebamentos. Ainda que não elevadas ao nível do casamento com todas as letras e assinaturas, as uniões de facto consubstanciaram perante a comunidade, para além de eventual amor, fortes relações de solidariedade e entreajuda. Por esses anos, o meu amigo Zé dos Pneus convenceu Josefina e Gervásio a oficializarem a sua profícua ‘união de facto’. Eles assim fizeram, com discrição e orgulho.

A Comunidade Económica Europeia (CEE) também se aventurou pelos caminhos de uma União Europeia, a que Portugal insistiu em aderir, em 1986. Na altura, em fresquinha união de facto, Josefina e Gervásio acreditaram que Portugal assinava também uma união de facto, quiçá a caminho de um rotundo casamento. Aliás, tinham-lhes explicado que a lei portuguesa atribui à união de facto muitos dos efeitos jurídicos do casamento – assistência social, direito a alimentos e mesmo garantia de alimentação. Por dever de união, sem juras ou promessas vãs, presume-se solidariedade nos bons e nos maus momentos.

Nos últimos tempos, o casal alentejano tem seguido com atenção o doloroso e tenso processo da Grécia na União Europeia. Josefina acredita que a Grécia "ainda acaba por pedir o divórcio..." Gervásio é mais conservador. "Coitados! Não têm onde cair mortos..." Josefina, resistente, abana a cabeça. "Só mortos é que eles se agacham..." A conversa avança para essa miscelânea chamada União Europeia, onde os ricos emprestam dinheiro aos pobres, na condição de estes lhes comprarem o excesso de produção. Espertalhaços, os ricos até dão um ar de mãos-largas ao comprarem a dívida dos pobres. O problema é quando os pobres se habituam às farturas dos ricos, convencidos de que a União é de facto. Josefina percebeu agora que a União não é de facto, muito menos casamento a sério. E lembra-se da diferença que lhe explicaram. "Se fosse casamento, havia bens comuns sujeitos a partilha..." Assim, de facto, nem o pobre Passos quer partilhar o que quer que seja com o pobretanas Tsipras. E, por interesse, ninguém tem coragem para pedir o divórcio.

Victor Bandarra crónica desunião de facto
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