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Victor Bandarra

Grandes cegadas

Nos tempos da outra senhora, o Carnaval foi pretexto para se fazer o proibido e dizer o indizível.

Victor Bandarra 22 de Fevereiro de 2015 às 00:30

Jesus Cristo, o nazareno, arrastava-se pelas ruas, cruz às costas, besuntado com tintura de iodo. Logo atrás, meia dúzia de rapazotes meio despidos puxavam por correntes, armados em escravos, também eles a fingir de ensanguentados. Podia ser a reconstituição da Paixão de Cristo, em plena Quaresma.

Mas não. Era Carnaval e o grupo de foliões deambulava pelas ruelas da portuguesíssima Nazaré, nos idos de 60. Um grande forrobodó com escravos e correntes, mais um Cristo esfarrapado – claro que deu para o torto. O bufo de serviço alertara as autoridades. À esquina, lá estavam os polícias, prontos a identificar quem se atrevia a gozar com a religião e, sobretudo, a insinuar resquícios de escravatura no cantinho lusitano.

Nos tempos da outra senhora, o Carnaval foi pretexto para se fazer o proibido e dizer o indizível, sempre por entrelinhas mais ou menos tortas. E mesmo quando o governo de então proibiu as "cegadas", continuaram a fazer-se, meio às escondidas, "grandes cegadas" de crítica, escárnio e maldizer. Alguns agrimensores do regime deixavam passar umas coisitas, mas os mais papistas levavam tudo a peito e a eito, sobretudo no Carnaval. Por isso, o grupo de nazarenos foi todo parar atrás das grades.

O Entrudo mudou! Nesta democracia-troikiana, pespegam-nos nos corsos com os bonecos-políticos, a frio, sem grandes subtilezas. Porque as "cegadas" vão passando à história, até porque dão um trabalhão a engendrar. Cavaco, Portas, Passos e mais uns quantos vão-se assim aguentando no seu pomposo papel de simples bonecos.

Também Costa vai agora metendo o bedelho enquanto boneco de Entrudo. Outros, como Gaspar e Relvas, fizeram história carnavalesca mas já passaram à história. Incontornável é o boneco Sócrates. Nos últimos entrudos, o homem foi tudo quanto é boneco: bom e mau, ministro e primeiro-ministro, Pinóquio e Homem-de-Ferro. Este ano, o boneco é outro: Sócrates atrás das grades.

Nesse Carnaval nazareno, o Cristo com tintura de iodo foi detido e enviado para a esquadra de Leiria. Os homens apanharam uns bofetões, os rapazes um raspanete. Foram recambiados para casa umas horas depois. Hoje, presume-se que ninguém possa ser preso apenas por criticar os ricos ou os poderosos, o governo ou os juízes – isso daria um "cegada" das antigas.

Mas ultimamente, a Justiça tem dado uma ajudinha aos corsos carnavalescos, ao prender e acusar gente como Sócrates ou Ricardo Espírito Santo. Um favor que até pode acabar numa grande "cegada".

crónica de Victor Bandarra Ligação Directa
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