Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
5
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Victor Bandarra

Idiota genial

As razões de um excêntrico mendigo

Victor Bandarra 21 de Setembro de 2014 às 00:30

Olhos esbugalhados, ex-combatente em África, rótulo de louco encartado, fala baixinho enquanto deambula pelo parque e ruas adjacentes. Francisco fica chateado quando o tratam por Chico. "Chico só na tropa!" É personagem adoptado e protegido pelos velhos habitantes do bairro. Se o deixam em paz, não faz mal a uma mosca. Pede uma moeda e um cigarrinho aos passantes, frase mecânica acabada com imperativo "faça voxência esse favor!" O desporto preferido dos que lhe conhecem o hábito é levarem a mão ao bolso e estenderem a palma com duas moedas à vista: uma de 1 euro e outra de 50 cêntimos. "Francisco! Qual queres?!" O Francisco escolhe sempre a moeda de 50 cêntimos. "Mas porquê, Francisco?" Francisco tem gostos que nem se discutem. "Gosto mais das escurinhas!" É esta a prova provada de que Francisco é louco varrido, idiota sem eira nem beira, pobre diabo que vive por conta da caridade pública e de séries diárias de moedas de 50 cêntimos. Francisco que, entre uma moeda de 10 cêntimos e outra de 2 cêntimos, escolhe sempre a mais escurinha. Porque Francisco, como todos sabem, não sabe mentir, diz sempre o que lhe vem à cabeça, revela sempre o que pensa.

Há séculos que ninguém acredita numa pessoa que diz sempre a verdade. Menos ainda quando é alguém que diz sempre o que pensa. Na realidade, a vida em sociedade vai sendo modelada por quem, para o bem ou para o mal, por inteligência ou simples bom senso, utiliza uma máscara que os faz viver, sobreviver ou até prosperar. Bem observou o poeta António Aleixo: "Para não fazeres ofensas/ E teres dias felizes/ Não digas tudo o que pensas/ Mas pensa tudo o que dizes!"

O russo Dostoievski, escritor genial e epiléptico, construiu em ‘O Idiota’ uma das maiores obras da literatura mundial. O príncipe Michkin, o idiota, tem 27 anos quando regressa a São Petersburgo para receber a herança de um tio. Sofre de epilepsia e é uma mistura de Cristo e Dom Quixote. Ingénuo, generoso, puro, dá uso a prodigioso senso comum. Diz sempre a verdade e sempre o que pensa. Nunca se arrepende e raramente tem dúvidas. Obviamente, em democracia, nunca chegaria a primeiro-ministro, sequer a porteiro de ministério. Seria sempre tratado como o coitadinho, aturável por bondade ou interesse, o idiota de serviço. Michkin entenderia as obsessões de hoje pelo dinheiro e pelo poder, mas não aguentaria um dia em sociedade nestes tempos de radical obsessão pela sobrevivência. Michkin, espírito profético, ignoraria a chacota. Francisco, espírito sobrevivente, ultrapassa a chacota. Recentemente, sabe-se lá porquê, Francisco descaiu-se com lógica a toda a prova. "Claro que escolho sempre a escurinha! Se escolhesse a de 1 euro, nunca mais ninguém queria rir-se da minha parvoíce..."

Victor Bandarra crónica idiota genial ligação directa
Ver comentários