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Victor Bandarra

Lisboa antiga

Aristides cumpre sonho antigo: deambula pela velha Lisboa e prepara a alma para rezar a Santo António na carismática igreja do santo, junto à Sé, a meio caminho do Castelo de S. Jorge.

Victor Bandarra 12 de Junho de 2016 às 00:30

Brasileiro do sertão   pernambucano,   filho, neto e bisneto de portugueses, calcorreou   as   sete   partidas   do Mundo, mas quis o destino que nunca visitasse a Lisboa da avó paterna. Fotógrafo profissional, filho de fazendeiro endinheirado,   viveu   e   trabalhou   em   São Paulo e Rio de Janeiro, Nova Iorque e Miami. Seguiu guerras e atentados,   sismos   e   acidentes dramáticos. Ao jeito de Sebastião   Salgado,   calcorreou   meio mundo, das favelas cariocas ao garimpo da Serra Pelada.

Sempre escutou da avó velhinha que só seria farto e feliz no casamento se um dia ajoelhasse na Igreja do santo casamenteiro. Aristides, alto e louro, cinco filhos   de   sua   lavra,   fazia-lhe promessas.   "Um   dia,   minha avó, hei-de ir rezar ao santo lá mesmo em Lisboa." Quatro casamentos no currículo, Aristides acha que está na hora quando a última mulher lhe comunica   com   tristeza:   "Meu   bem! Não   dá   mais   não!"   Aristides enche a mochila com montes de material fotográfico e mete-se no   avião.   Aterra   em   Lisboa   a meio   dos   preparativos   para   o Santo António, o que lhe traz à lembrança as festas juninas do torrão pernambucano. Almoça sardinhas no Castelo, com amigos portugueses, e gaba-lhes a calma e a segurança de Lisboa. "Vocês nem sabem a sorte que têm! Andar por aí, sem medo, sem   gradeamentos,   sem   policiais armados por todo o lado..." E emociona-se quando lhe explicam, mito ou realidade, que a igreja do santo casamenteiro foi reconstruída após o terramoto de 1755, muito por graça de milhares de criancinhas que pediam "um tostãozinho para o Santo António". A meio da tarde, repousando o olho sobre as moçoilas, desce finalmente até à Igreja de Santo António. Na penumbra   do   templo   vazio, sente uma paz das antigas. Pousa   o   saco   das   máquinas   num banco   e   avança   até   ao   altar. Ajoelha,   cerra   as   pálpebras, pende a cabeça e reza ao santo, pleno de fé e devoção. Não sabe quanto tempo ali se queda, rezando. Só sabe que quando regressa   ao   banco   de   pau   só   lá está... o banco de pau. Nem rasto do material fotográfico. Desorientado, corre para o largo da Sé, pergunta onde fica uma delegacia de polícia e dá-lhe para entrar   no   primeiro   ‘eléctrico’ que passa, o 28. Rogando pragas à sacanagem alfacinha, Aristides chega finalmente à esquadra.   Pedem-lhe   o   passaporte. Aristides leva a mão ao bolso e sente   o   segundo   terramoto   do dia: nem passaporte nem carteira. Fica a saber que os carteiristas lisboetas são os mais suaves do Mundo.
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