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Victor Bandarra

O coração de Portugal

Joaquim mantém-se vigilante, sentado à porta de uma casinha de família, em Vila de Rei.

Victor Bandarra 29 de Outubro de 2017 às 00:30

Joaquim mantém-se vigilante, sentado à porta de uma casinha de família, em Vila de Rei. O velho de 80 anos, que fez vida como pastor e resineiro, para ali está, desolado, bengala entre mãos, olhos postos no horizonte enfumarado. Os bombeiros haviam-no retirado à força da sua aldeia de Água Formosa.

Nesse dia de 1980, as gentes do concelho viram arder uma boa parte da sua floresta de pinhal. Aos de fora, Joaquim aponta os montes fronteiros, para o Centro Geodésico de Portugal. "O centro de Portugal é mesmo para ali, no Picoto da Milriça! Deve ter ardido tudo!" Ardeu muito, uma boa parte do concelho, quase tudo pinhal.

 Seis anos depois, pelas 13h45 de 13 de Julho de 1986, o fogo começou a Norte de Vila de Rei. As chamas percorreram mais de metade do concelho, ao longo de 8 dias, 7 horas e 15 minutos (segundo um estudo do geógrafo Luciano Lourenço, da Universidade de Coimbra).

Desta vez, arderam 12 mil hectares, a maioria já replantada com eucaliptos. Ninguém acreditava então que pudessem arder 12 mil hectares de uma só vez. Já muito velhinho, Joaquim para ali esteve, em vigília, à porta da mesma casa de Vila de Rei. "Há que tempos não vou à Água Formosa! Agora é que ardeu tudo!" Não ardeu tudo, mas ardeu muito.

E Joaquim fixado no Centro Geodésico de Portugal. "Sabem os senhores que o centro de Portugal é aqui em Vila de Rei? Deve ter ardido tudo!" Não ardeu, mas andou à volta. No ano seguinte, 1987, outro fogo de grande fulgor calcorreou as redondezas - Arganil, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra. Havia mais eucaliptos, menos gente, mais mato. Muitos acharam coisa do diabo as bolas de fogo que sobrevoaram a floresta para atear mais fogo, mais à frente. Agora, chamam-lhe "projecções".

Por essa altura, segundo registos, tinha Água Formosa 22 casas. Uma aldeia de xisto, onde a água do ribeiro corre por debaixo das casas. Joaquim explicava, mas poucos o ouviam. "Deve ter ardido tudo! Já não está lá ninguém para limpar a terra e molhar as casas..."

Este ano, arderam mais de 350 mil hectares de floresta - sobretudo eucaliptos e pinheiros, mais casas, hortas e pomares. Houve mortos, feridos, sangue e lágrimas. Saltam especialistas a explicar o que aconteceu, como aconteceu, por que é que aconteceu. Surgem memorialistas a criticar o que não foi feito, o que devia ter sido feito.

Água Formosa está hoje transformada, e bem, numa aldeia de turismo rural. Pastores nem vê-los, resineiros muito menos. Os velhos das aldeias de Vila de Rei e de toda a região do Pinhal estão em lares ou nem isso. António Costa, apanhado     pelo Clima, e Marcelo, afectado pelos afectos, proclamam que desta vez é que é, que Portugal nunca mais pode arder como ardeu.

Nos dias de brasa de há 21 anos, Joaquim gritou avisos a quem nem sequer o escutava. "Não se esqueçam! Aqui é o coração de Portugal! Pára o coração, pára Portugal!" Joaquim morreu há muitos anos. Era velho, ninguém o queria ouvir.

Ligação Direta Victor Bandarra
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