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Victor Bandarra

O poder do fora-de-jogo

Teresinha grita-se benfiquista orgulhosa, mas o que ela é é patriota fanática pela Selecção Nacional.

Victor Bandarra 2 de Abril de 2017 às 00:30

Teresinha grita-se benfiquista orgulhosa, mas o que ela é é patriota fanática pela Selecção Nacional. A culpa já vem de Eusébio, depois de Chalana, depois de Futre, depois de Rui Costa, de Figo, de João Pinto e por fim - entre suspiros - de Cristiano Ronaldo. Teresinha, pimpona nos seus sessentas, não se lembra bem dos chutos do Pantera Negra, nem sequer das fintas à esquerda de Futre. E nem sequer entrou em nenhum dos estádios da Luz ou de Alvalade.

Mas lê, vê e ouve tudo o que lhe aparece sobre futebol. Para ela, adepta ofegante, o futebol é exotismo e televisão, ritual e cerimónia, crença e superstição. O seu maior problema chama-se fora-de-jogo. Ainda que tenha decorado as 17 principais regras do futebol, ofende-se quando os amigos lhe atiram que ainda não percebeu bem o que é um fora-de-jogo.

Teresinha indigna-se com a piada, maior das ofensas machistas. Cita logo as primeiras regras do "fooball association", em 1863, avançando pelas 95 alterações e mudanças às leis do jogo, em 2016. Os amigos tentam baralhá-la com as regras da mão-na-bola e bola-na-mão, mais as faltas de "carrinho" e jogo perigoso. E quando avançam com insinuações sobre as presumíveis vigarices dos árbitros, Teresinha vai mesmo aos arames. "Esses gajos vivem das regras! E como ninguém conhece bem as regras... "Em verdade, o futebol e o seu mundo vivem de regras. Ninguém cuspiria ou lançava fumaça sobre ninguém se não fossem as regras presumivelmente violadas. Ninguém ofenderia mães ou mulheres dos árbitros se não fossem as regras. Mas que regras? E quantos se dão ao luxo de consultar e estudar as regras do futebol? Ainda que desde o século XIX elas não tenham mudado por aí além. Até por isso, Teresinha explica a todos que o penálti é instituído em 1891, que só em 1958 é permitida a substituição de um jogador, que só em 1987 se aceita o prolongamento do jogo.

Os mandantes do futebol cedo perceberam que a grande vantagem e sucesso do futebol é, em dois tempos, a sua complexidade e a sua simplicidade. Por isso, para quê mudar? Teresinha disserta sobre tudo isto, qual Padre António Vieira em sermão aos peixes! E os amigos a darem-lhe. "Então explica lá isso do fora-de-jogo?" Teresinha suspira, puxa do cardápio e recita a lei XI: "O jogador está fora de jogo se estiver mais próximo da baliza adversária do que a bola e o penúltimo adversário" (o último será o guarda-redes). Todos se riem. Como quem diz: isso é verdade, mas ainda não percebeste nada!

Teresinha embirra com os fora-de-jogo e avança com regra anarquista: penáltis a partir do meio-campo e, ideia genial e novecentista, fim da regra do fora-de-jogo. Pânico geral entre o grupo. Teresinha não entende. E alguém lhe explica, muito a sério, que sem o fora-de-jogo, as televisões perdiam dinheiro, os árbitros perdiam protagonismo e os presidentes dos clubes perdiam poder. E mais do que tudo: "De que é que havíamos de falar durante a semana? Só de futebol?!"

Victor Bandarra Ligação Direta
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