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Victor Bandarra

O menestrel maldito

Juca Chaves, 78 anos, sempre recusou o epíteto de humorista, mas insiste que a vida tem de ser vivida com alegria!

Victor Bandarra 19 de Junho de 2016 às 10:46

Mário Soares rebola-se na cadeira de tanto rir. No Teatro São Luiz, em Lisboa, Juca Chaves debita modinhas com sua cítara e geniais histórias de humor político. É o início da década de 80. João Figueiredo é Presidente do Brasil, o último do regime militar. Juca Chaves conta que o então ministro Ângelo Correia, de visita ao Brasil, havia sido convidado pelo Presidente para um espectáculo de ballet em Brasília. Figueiredo, conhecido pelo seu amor a cavalos e a cheiros de caserna, adormece na tribuna passados cinco minutos. Meia hora depois, acorda em sobressalto. "Sr. Ministro! Acha que deu para reparar que eu tirei um cochilo?!" Resposta de Ângelo Correia: "Acho que sim, sr. Presidente! Há mais de meia hora que eles estão a andar em bicos de pés..."

É justo recordar Juca Chaves (humorista, músico, compositor, artista de múltiplos talentos) na semana em que é divulgado um estudo que mostra que os portugueses são o povo mais triste entre os povos da OCDE. Pudera! No país do fado, herdeiros de décadas de cinzentismo salazarista, a resposta comum do português comum ao "como é que estás?" é o "cá se vai andando". É triste constatar que o relatório lembra que a média de riqueza por família, em Portugal, ronda os 26 500 euros anuais, muito abaixo dos 77 700 euros da média dos países estudados. Em Portugal, ser triste não é defeito, é fado!

Juca Chaves, 78 anos, sempre recusou o epíteto de humorista, mas insiste que "a vida tem que ser alegria!" Filho de emigrante judeu austríaco que foi grão-
-mestre maçon, Juca chegou a montar um circo no Rio de Janeiro, nos anos 60. E sempre gostou dos prazeres da vida. A publicidade aos seus "shows" de então começava assim:
"Ajude o Juquinha a comprar o seu primeiro Jaguar!" Amigo de Jorge Amado e crítico feroz do regime militar, do mercado fonográfico e da chamada "grande Imprensa", incomoda tudo e todos com tiradas como esta: "A Imprensa é um caso sério. Por dinheiro, é capaz de tudo, até de dizer a verdade!" Tantas diz e tantas faz que decide exilar-se em Portugal, uma ditadura (marcelista) mais suave. No país dos tristes, Juca Chaves passa a incomodar o governo com as suas sátiras. Coroa de glória recebe Juca no dia em que os estudantes de Coimbra colocam no chão as capas negras para que o brasileiro passe por cima. Juca intitula-se "o menestrel maldito", mas os estudantes põem-
-lhe o cognome de "menestrel da Liberdade!" Juca Chaves é obrigado a sair do país logo a seguir. Porque, entre tantas, conta nos seus espectáculos que, ao chegar a Lisboa, um amigo o convidou a ir à Avenida da Liberdade. Pergunta do Juca:
"E quando é que inaugura?"

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