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Victor Bandarra

Presidenciáveis

Feitas as contas, sentiu-se dono e senhor do voto de mais de 100 conterrâneos.

Victor Bandarra 17 de Maio de 2015 às 00:30

Contava o meu amigo Zé dos Pneus que em certa freguesia beirã havia um pequeno proprietário rural que tinha por sonho e por força ser Presidente da Junta. Manuel da Ti Rita já ia nos 70 e tal anos. Finório e labutador, era dono de bastas terras de cultivo e de profícua manada de gado. Tinha sete filhos e mais de 20 netos. Quase todos trabalhavam para o velho Manuel, que ainda dava emprego sazonal a boa parte dos assalariados rurais da pequena freguesia. O seu apelido de família era Santos. E o seu maior rival era o primo Chico Santos, também ele macho dominante de vasta prole. Os dois controlavam o clã dos Santos, ou seja, os descendentes da defunta Ti Rita.

Na luta íntima pela presidência da Junta, Manuel sempre se confrontou com problema bicudo: não era nem queria ser filiado em partidos políticos. Tinha para ele que todos os partidos lhe tiravam a paciência e a independência. Certo dia, os poderes de S. Bento decidiram que nas freguesias com 150 eleitores ou menos, a assembleia de freguesia seria substituída pelo Plenário de Cidadãos Eleitores, que passava a eleger o presidente e os vogais da Junta (lei 169/99). Manuel da Ti Rita suspirou de regozijo. "Agora é que vai ser!" A freguesia tinha à volta de 145 eleitores e mais de metade dos 200 habitantes era descendente da Ti Rita.

Discreto e ladino, Manuel começou a sua campanha tête-à-tête. A filhos e netos, a primos e sobrinhos, a um de cada vez, prometeu mordomias e testamento a condizer. Um exagero pré-eleitoral, até porque as terras, o gado e as poupanças prometidas quase faziam dele uma mistura de Belmiro com Amorim. Aos assalariados, mão no peito e palavra de honra, acenou-lhes com aumento da jorna e horário reduzido. Feitas as contas, sentiu-se dono e senhor do voto de mais de 100 conterrâneos. Eleições à vista, sentou-se sob um choupo, cofiou a barba e deixou-se embalar pelo suave bruaá do riacho da aldeia, antevendo o gozo da vitória. No dia certo, plenário reunido no salão de festas cheio que nem cacho, fez-se a votação do poder popular. Manuel da Ti Rita esfregou os olhos sem acreditar: o primo Chico a vencer com maioria absoluta.

"Ó diabo! A família lixou-me bem lixado!" Não havia ocorrido a Manuel que o primo Chico era o barbeiro da freguesia, ensaiador do grupo de teatro, filiado no partido político mais bem implantado no concelho e, mais importante que tudo, já eleito presidente da Junta nas eleições anteriores.

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