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Victor Bandarra

Tempos modernos

Correm tempos exaltantes, agitados, históricos e modernos.

Victor Bandarra 8 de Novembro de 2015 às 00:30

No quiosque, enquanto deposita o jornal nas mãos do septuagenário reformado, a rapariguita não resiste a comentário sobre a manchete do dia, uma frase de António Costa. "Este Costa ainda vai estragar tudo o que o governo tem feito!" Ao lado, a colega de banca ri-se. "Lá estás tu a defender o Passos..." Andam as duas pela mesma idade: 19 anos. Desempregadas, pois claro! Fazem um biscate no quiosque, a jovem fã de Passos é sobrinha da dona. O homem sorri, há pretexto para conversa. "Então e a menina acha que o Costa vai estragar o quê?" A miúda tenta explicar, frase feita na ponta da língua. "Andámos a poupar estes anos todos, e agora ele vai gastar tudo..." A colega lança o chiste. "Se há dinheiro é p’ra se gastar!" O homem finge admiração. "Mas o Costa vai gastar o quê em quê?!" Engasganço da rapariga, nova gargalhada da colega. O reformado, irónico, avança com subtil e condescendente provocação. "A menina deve ganhar bem! Tem poupado muito?" A menina do quiosque baixa os olhos. "Nem por isso..."

Afogadas na modernice dos tempos, com certeza que as duas jovens nunca viram ‘Tempos Modernos’, o genial filme dos anos 30 do genial Chaplin, um manifesto contra o capitalismo e todas as formas de ditadura e imperialismo. O vagabundo-Chaplin começa por trabalhar como autêntico escravo numa fábrica de chocolates e vai parar a um hospício. Quando sai, a fábrica está fechada. Conhece então uma jovem órfã, com o pai desempregado e duas irmãs pequenas. A rapariga rouba um pão para matar a fome. Várias peripécias depois, o pai da jovem morre numa manifestação operária e o vagabundo é tomado como perigoso comunista envolvido na greve em curso. O filme faz rir e pensar, o que nunca agrada aos censores do costume. Passava-se então muita fome na América. As máquinas substituíam os homens. Não havia emprego, havia greves, agitação social e até eleições. Eram tempos modernos.


No quiosque, modernaças, as duas jovens tentam aguentar a conversa do velho freguês. Espevitadas, habituaram-se à leitura das primeiras páginas e títulos debaixo do nariz. Em tempos de ditadura da TV e da net, sempre vão lendo qualquer coisinha nos jornais. A conversa corre ligeira. O reformado mete pergunta:
"E já agora, as meninas votaram em que partido?" As duas, rápidas, em uníssono: "Votar? P’ra quê?! Temos mais que fazer!" 
victor bandarra crónica
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