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Victor Bandarra

Uma senhora velha

Chama-se Luísa mas, durante muitos anos, preferiu que lhe chamassem Amélia, nunca explicou porquê. Pelos fins de tarde, passeia-se junto ao Tejo, outras vezes pelos jardins de Lisboa, com cadelinha à trela.

Victor Bandarra 26 de Março de 2017 às 11:38

Chegou há dias aos 70 anos, rugosa e lúcida, inteligente e sensível. Nunca casou, nunca teve filhos, nunca explicou se por vontade se por inevitabilidade.

Nasceu algures no Minho mas nunca fala da meninice, nem da família, nem de nada que a possa perturbar. Durante mais de três décadas, serviu como mulher-a-dias, das três às sete da tarde, em casa de uma rica senhora acamada. Sempre descontou para a Segurança Social e as tardes de trabalho concederam-lhe uma pequena reforma. Além disso, ao morrer a patroa, descobriu que fazia parte do seu testamento.

Luísa tem um círculo muito restrito de amigas, velhas senhoras viúvas, de maquilhagem esmerada e bâton escarlate. Só Luísa prefere o rosa suave para os lábios finíssimos. Em casa de umas e de outras, jogam à sueca e à bisca, fazem paciências, vêem televisão, discutem as novelas e preparam as excursões de verão. De vez em quando, as amigas recebem filhos e netos. E nos dias seguintes, é uma tagarelice pegada sobre os bons velhos tempos da juventude. Luísa, sorriso ausente, deixa-as falar e nunca fala de si. Todas reparam e todas sabem que Luísa tem um segredo, mas ninguém sabe qual seja.

Há dias, face a um debate televisivo, solta--se a questão: legalizar ou não a prostituição. As opiniões dividem-se, por entre risinhos brejeiros. Nas "contra", invocam-se a moral, a religião, a saúde da mulher, a sida, a perigosa liberalização dos costumes e a ideia de que a legalização aumenta a procura de prostitutas. A "favor", há quem defenda a liberdade da mulher e o direito à profissionalização, com pagamento de impostos e Segurança Social, como nos países do Norte europeu. Uma das cultivadas senhoras, improvável esquerdista liberal, faz comparações. "Se os patrões podem lucrar legalmente com a mais-valia dos empregados, porque é que as mulheres não hão-de lucrar com a sua própria mais-valia?!" Pretexto para dichote. "Olha! Mais valia estares calada..." Caem na risota. "Bom! E se lhes dá prazer..." Luísa mantém os lábios cerrados, ainda mais finos e duros. "Ó Luísa! Achas bem legalizar a prostituição?!" Sem querer, ou talvez não, Luísa confessa-se. "Ainda me lembro da Luísa mulher-a-dias e da Amélia mulher-à-hora..." Silêncio pesado. "Ninguém se vende por prazer!" E num sorriso irónico. "Querem atirar a primeira pedra?!"

antiga ortografia

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