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Francisco Moita Flores

A arruaça e a ignorância

Desde a visita à Cova da Moura, neste sábado, onde Sampaio conseguiu colocar claramente o problema, até ao surgimento de medidas activas para reconfigurar a política sobre a metrópole vão passar anos.

Francisco Moita Flores 20 de Junho de 2005 às 17:00
Tiro o chapéu a Jorge Sampaio. É a primeira vez que oiço um político no activo reconhecer que não é possível baixar os níveis de violência na região de Lisboa sem olhar para esta realidade como manifestação do expansionismo da metrópole. É a primeira vez que é aceite esta realidade incontornável, ganhando o estatuto de problema político, libertando-se definitivamente da investigação e do debate académico para entrar directamente para a agenda política do Presidente da República. Dirão alguns que é pouco. Desde a visita à Cova da Moura, neste sábado, onde Sampaio conseguiu colocar claramente o problema, até ao surgimento de medidas activas para reconfigurar a política sobre a metrópole vão passar anos. Mas a verdade é que já não é possível iludir a questão e os múltiplos poderes sobre a organização e controlo social, político e policial vão ter de fazer um esforço para se adaptar, ceder, negociar, reequacionar as práticas preguiçosas e feitas de lugares comuns ou, então, correm o risco deles próprios se desagregarem.
Dou um exemplo deste desleixo preguiçoso. Em 2001 o governo de Guterres iniciou um programa de combate à exclusão chamado Escolhas 2.ª Geração. Tinha como finalidade combater a marginalidade e a exclusão. O governo que se lhe seguiu reconheceu a importância desta intervenção e deu-lhe maior fôlego. Feliciano Barreiras Duarte transformou este projecto num serviço à escala nacional. Era um desafio que perseguia a recondução de jovens em risco para o processo social integrado. Se atentarmos no conjunto de autarquias que aderiu a este projecto verifica-se que na região metropolitana de Lisboa, com algumas honrosas excepções, pouco foi o interesse manifestado. É que o problema é simples mas muito difícil de resolver. Na verdade aquilo que se trata é de entregar a gestão da metrópole a uma entidade supra-autárquica, chame-se Governo Regional ou Junta Metropolitana mas que olhe toda a região de Lisboa (e também a região do Porto) como um todo coerente e proceda à sua gestão, indiferente aos umbigos que o poder microscópico da autarquia não consegue resolver, nem perceber.
É difícil dizer aos presidentes das câmaras que vão perder poderes para uma eventual Junta ou Governo metropolitano. É difícil convencer o Governo a delegar poderes, que guarda religiosamente em nome do protagonismo pessoal dos vários actores, nessa Junta ou Governo metropolitano. Porque coragem é coisa rara no poder em Portugal. Decisão e determinação ainda mais raro e estou convencido que tudo mudará apenas no dia em que bandos por um lado, a extrema direita por outro, avançarem de forma tão decidida sobre os territórios da metrópole que a evidência da violência e da morte obrigará a decidir.
Até lá fica-nos a semente lançada por Jorge Sampaio. Talvez a pequena elite com alguma lucidez que tem responsabilidades de governar, nos vários níveis do poder, saiba perceber a mensagem do Presidente.
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