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Correio da Manhã

Opinião
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21 de Janeiro de 2007 às 17:00
Olá, sou o Art Buchwald. Acabo de morrer.” E era. O velho cronista americano, dando a sua última entrevista, dada na condição de aparecer só depois dele morrer. O jornal ‘New York Times’ fez um vídeo com a entrevista que foi divulgada depois da morte de Buchwald, na quinta-feira passada.
Vozes vindas do túmulo são coisas a que a vida moderna nos tem habituado. Sim, sim, lembrem-se daqueles camelos com um lenço amarrado na testa e dinamite no peito e que se despedem em vídeo, antes de rebentar com um autocarro e ir ter (julgam eles, o mundo de lá é ainda mais decepcionante que o de cá) com 77 virgens. E, depois, há aqueles entretantos que a medicina moderna cada vez mais permite e levam pessoas lúcidas a viver um limbo de semanas à espera de morrer. Se forem da estirpe de um Art Buchwald ajudam a percebermos um momento que está reservado a todos.
Art Buchwald tinha 81 anos e teve uma vida feliz como se pode adivinhar no título do seu último livro: ‘Demasiado Cedo para Dizer Adeus’, publicado em Novembro passado. Foi talvez o mais conhecido cronista americano, no pico da carreira a sua assinatura aparecia em mais de 500 jornais dos Estados Unidos e era traduzido em 100 países. Em Portugal, julgo tê-lo lido no ‘Diário Popular’ e na ‘Vida Mundial’. Regularmente as suas crónicas eram juntas em livro (publicou 33). Especialista em coisa nenhuma, limitava-se a contar bem e a forma que escolheu para isso foi o humor.
Depois da II Guerra Mundial, que cumpriu nos ‘marines’, decidiu ir viver para Paris. A definição que tinha de felicidade era empanturrar-se com ‘baguettes’ e encontrar uma parisiense chamada Mimi que o achasse outro Hemingway. A edição do ‘Herald Tribune’ publicada em Paris aceitou-lhe uma crónica e ele foi por aí fora. Os jornais americanos chamaram um figo a Buchwald que escrevia de tudo e de coisa nenhuma, com graça e, sobretudo, sem se levar a sério.
Quando a actriz Grace Kelly se casou com o príncipe Rainier do Mónaco, ele explicou que não foi ao casamento por uma questão de família, “os Buchwalds e os Grimaldi não se falam desde 9 de Janeiro de 1297”. De outra vez, andou por vários países da Cortina de Ferro, fazendo-se conduzir, numa limusina, por um motorista impecavelmente fardado. Já que o olhar dele era de um porco capitalista pago pelos jornais do imperialismo, ao menos que o contacto entre os dois Mundos fosse feito de forma clara, sem mentiras.
Lembro-me de uma crónica dele no Jardim do Luxemburgo, em Paris, jovem pai, babado com o filho que atirava areia, com graça e encanto, para os olhos das outras crianças, e da sua irritação quando os outros respondiam, de forma grosseira, atirando areia ao seu menino. Daí a concluir, muitas crónicas e anos depois, que o Partido Comunista dos Estados Unidos acabaria por ser grande, com tantos informadores do FBI que entravam, era só o prolongamento da forma de Art Buchwald ver. De viés, mas provavelmente a mais certa.
No ano passado, os médicos deram-lhe semanas de vida. Desatou a escrever mais e a dar entrevistas, tornou-se o moribundo mais célebre da América. Os rins, por milagre, voltaram a funcionar. Mas lá morreu, esta semana. Com um lamento: “Tenho pena de perder o aquecimento global. A sorte das pessoas que o vão ter!”
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