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Correio da Manhã

Opinião
24 de Outubro de 2009 às 00:30

Disse Saramago que "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldades e de traições. O Deus da Bíblia é uma pessoa cruel, invejosa, vingativa e insuportável. Em pequeno dão-nos sal na boca e deitam-nos água e assim passamos a fazer parte da quadrilha".

Que forma estranha de um Prémio Nobel da literatura falar e comunicar o seu pensamento. A sua inquietude nos assuntos da religião não é compatível com a sua dimensão literária. De certeza que o livro é bem melhor que o pensamento divulgado. A política de marketing usada para divulgar o livro, embora consciente, foi errada e banalizou o pensamento de Saramago.

Só me interessa esta polémica na vertente do justo e da justiça. Pouco me dizem as raivas e os problemas mal resolvidos que ela encerra. E na dimensão do justo e da justiça todos sabemos que a Bíblia é o resultado da longa experiência religiosa do povo de Israel, com todas as suas virtudes e defeitos. É uma história de vida, feita de registos de várias pessoas, de diversas profissões, origens culturais e classes sociais, escrita ao longo de um período de mais de mil anos, em diversos lugares, em contextos diferentes.

A boa hermenêutica aconselha que qualquer texto deve ser interpretado no seu contexto e nunca isolado. Por isso é que a Bíblia é também um manual de boas virtudes, de coisas boas e admiráveis, quer do ponto de vista literário, quer da mensagem que transmite. Jesus, no Sermão da Montanha, ilustrou, de forma clara e concisa, essas virtudes: bem--aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

A Bíblia não pode ser interpretada de forma literal, porque muitos dos textos que a compõem são metafóricos, são datados e só fazem sentido no tempo em que foram escritos. Como Aristóteles e Tomás de Aquino disseram, o caminho do vício até à virtude é sinuoso, estando o vício nos extremos e a virtude sempre no meio-termo.

Foi este rigor que Saramago não teve. Custa-me dizer, mas foi panfletário e demagógico. Culpar Deus por todo o mal deste Mundo, embora, de forma contraditória, negue a sua existência, é um exagero.

E onde fica o homem?

Estamos a viver um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado. A capacidade de escolha entre o bem e o mal é um contributo humano fundamental, como diria Steinbeck.

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