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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Novembro de 2007 às 00:00
Gilberto Madaíl decidiu colocar na agenda a putativa candidatura de Portugal à organização do Mundial de 2018. Se a irresponsabilidade pagasse imposto, José Sócrates e Teixeira dos Santos seriam os políticos mais felizes cá do burgo.
Mais preocupado com a sua posição futura entre os corredores da UEFA e da FIFA, o presidente da FPF lançou a bojarda. Não custa nada: não custa dinheiro declarar que Portugal está em condições de organizar qualquer Mundial ou mesmo os Jogos Olímpicos. Se os custos dessas iniciativas saíssem dos bolsos dos promotores, provavelmente teriam mais cuidado com as suas confabulações. Andar nas nuvens, fora do contexto terráqueo, é fácil, mas perigoso.
Gilberto Madaíl ainda é o presidente da FPF e, por isso, deveria ser mais contido neste tipo de declarações, sobretudo quando sabe que os portugueses ainda estão a pagar a factura do êxtase correspondente à realização do Euro’2004. Foi um grande escape social, sem dúvida, um momento de forte solidariedade em torno do símbolo da pátria, mas com custos que os contribuintes estão e continuarão a pagar.
Não está em causa a promoção do miserabilismo. Não está em causa sequer pôr em causa o empreendedorismo dos portugueses. A única coisa que está em causa é o desfasamento entre o discurso demagógico e a situação que se depara, diariamente, à maioria dos cidadãos.
Com megalomania desajustada da realidade porque passam milhões de portugueses, vergados sob o peso da carga fiscal, desemprego, custo de vida e baixos salários, Gilberto Madaíl assume optimismo político felizmente refreado por Laurentino Dias, que não deixou passar a bojarda.
Na verdade, falar da organização de um Mundial, num momento em que se pedem amplos sacrifícios aos portugueses, é ofender o Zé Povinho.
A curiosidade está no facto de ser um Governo socialista a colocar algum bom-senso nesta questão. Porque foi exactamente um Governo socialista (1999), então liderado por António Guterres e do qual fazia parte o actual primeiro-ministro, José Sócrates, a promover o sonho, entretanto tornado realidade, do Euro’2004, embora tivesse sido Durão Barroso a aparecer nas fotografias.
Construíram-se novos estádios que estão, agora, às moscas. Passados mais de três anos sobre o Euro’2004, os responsáveis de tamanha megalomania acham-se os maiores. Continuam a falar das bandeiras à janela e da alegria gerada pelo desempenho da Selecção Nacional. E a factura que o povo e os clubes estão a pagar? Se o País estivesse economicamente sustentado, seria óbvia a lógica de candidaturas como esta. Mas a realidade, pura e dura, é bem diferente.
Gilberto Madaíl pode até pedir a organização dos Mundiais até 2032. Não custa nada. É só sugerir. Madaíl e todos aqueles (políticos) que andam nas nuvens e nos corredores de Bruxelas não pagam a crise. Sensato foi Laurentino Dias ao dizer que o assunto não está sobre a mesa. Este País continua a brincar aos futebóis. Já era assim no Estado Novo. O futebol servia para tudo. Agora, neste particular, as coisas não mudaram muito. O futebol ainda serve para desviar as atenções dos portugueses. Atirando-lhes areia para os olhos.
Quando se fala do desempenho do presidente da FPF atribui-se-lhe um conjunto de vitórias no âmbito desportivo. É uma forma porreira de avaliação.
O futebol debate-se hoje com o seu imobilismo. Fechado na sua concha, recusa-se a evoluir. Na busca de soluções, com apoio tecnológico, para impor o paradigma da verdade desportiva.
Os formatos das competições, ao nível de selecções, está desajustado da (nova) geografia europeia. O que fez Madaíl e alguns dos seus parceiros no sentido de alargar o pensamento em relação às questões hodiernas do futebol? Muito pouco ou quase nada. Das questões de fundo, ninguém trata. E se não são os senhores do futebol a cuidar da modalidade (pelo contrário, insistem no conservadorismo), a quem se pode pedir que zele pelo beautiful game? Cada um trata de si, da sua posição e o resto é paisagem.
NOTA: Santana Lopes, no Parlamento, nunca vai livrar-se do confronto com o passado e com a imagem de derrotado. Só por necessidade é possível sujeitar-se a uma tal humilhação.
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