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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Novembro de 2002 às 00:01
1.Parece que passaram décadas, mas foi há semanas que se discutiu o possível sumiço de 40 milhões de contos do Ministério da Justiça. Tudo bem espremido, ninguém conheceu o destino da verba, e, mais relevante, ninguém se preocupa em conhecer. Ficando por casos actuais, o mesmo sucedeu com os milhões do Metro, e o mesmo, certo e sabido, acontecerá com as inúmeras insinuações da dra. Morgado (para acusações faltam-lhes provas), sobre a aliança autarquias-futebol, as maquinações do director da Judiciária, as cedências do procurador-geral e, tema ligeiro, a interferência de dois ministros na investigação de um processo criminal. Por uma questão de coerência, também não se espera muito do julgamento da Moderna, da empolada ‘limpeza’ na GNR e das suspeitas tocantes à PSP.

Um facto é notório: algures, ao longo do nosso radioso caminho rumo à Europa, fizemos um desvio e aproximamo-nos do Paraguai. Não apenas prospera a bandalheira como a indiferença que lhe é dedicada. De habituais, as polémicas esgotam-se nas manchetes da imprensa e na abertura dos noticiários. Num momento causam (relativo) pasmo – "isto é uma pouca vergonha!" – e no momento seguinte foram esquecidas.

Claro que, durante um dia ou dois, o Parlamento finge discutir os assuntos e, a espaços, uma comissão "analisa-os" em pormenor. Mas, porque será?, as pessoas deixaram de levar a sério o que acontece em S. Bento ou nos tribunais ou nos quartéis. A julgar pelas aparências, e não só, é natural que o vulgar cidadão contemple o Estado e veja um antro, onde a impunidade manda e a trafulhice dá cartas.

Assim, resta acrescentar que o terceiro "perdão" à dívida fiscal dos contribuintes, recentemente anunciado, é tão cínico quanto a contestação em seu redor. Atolado na corrupção, real ou putativa, que diariamente lhes exibe, o Estado não tem condições para exigir nada dos cidadãos, nem moral para lhes pedir coisa alguma. Sugerir que os ‘perdoa’ já entra na ofensa.

2.Expliquemo-nos. Primeiro, na sequência da exultante prestação "tuga" no Mundial, o sr. Madaíl ignorou os boatos da imprensa e as acusações de ex-compinchas, resolvendo o caso mediante a tentativa de demissão do treinador Oliveira, à época incontactável. Depois, e enquanto não se descobria o treinador Oliveira, o sr.

Madaíl pôs um sujeito de bigode e nome idênticos no lugar dele, a título provisório – ou não. O treinador Oliveira II caiu no goto dos jogadores, mas não no do sr. Madaíl, que em plena campanha para a reeleição na FPF prometeu um treinador português, o que levantou de imediato a possibilidade de o treinador Oliveira II ser, por exemplo, turco.

Uma tal Associação de Treinadores apoiou com entusiasmo a garantia (ah, patriotas!) e o sr. Madaíl foi reconduzido na presidência da Fede-ração, com um consenso semelhante ao de Saddam Hussein. O futuro seleccionador, estava decidido, seria indígena e chamar-se-ia Manuel José. Ou não. Num ápice, jogadores e dirigentes dividiram-se sobre a escolha do treinador José (ou não), e o respectivo anúncio foi sendo adiado, apesar da inabalável convicção do sr. Madaíl. Uma convicção que também abarcava o treinador Santos, o treinador Humberto e, no fundo, qualquer portador de BI nacional.

Isto até terça-feira. Nesse dia, com a massa de que são feitos os líderes, o sr. Madaíl chutou para canto o treinador José, manteve o treinador Oliveira II em funções mais um joguito e proclamou a necessidade de o seleccionador ser estrangeiro, afinal evidente desde o início. A pessoa em causa, como só os lorpas não terão percebido, é o sr. Scolari, vulgo "Felipão". Ou não.

Numa altura em que se associa o mundo da bola a interesses ocultos e a corrupção escancarada, vale-nos o sr. Madaíl para resgatar o futebol desses abismos e elevá-lo ao estatuto de alta comédia. Por omissão, presume-se que a tutela governamental estará a rir-se.
albertog@netcabo.pt
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