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Correio da Manhã

Opinião
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24 de Janeiro de 2007 às 09:00
Domingo passado, a minha cidade natal assistiu a uma caminhada pelo ‘sim’ no referendo. Assistir não é bem o termo: ninguém sai de casa para contemplar 200 sujeitos com rosas brancas na mão. Mas os dirigentes do PS, do PCP e do BE, mais dois ou três nomes da ‘cultura’ e do desporto e um punhado de anónimos de facto percorreram a marginal de Matosinhos, a distribuir flores pelas transeuntes que não os conseguiam evitar. No final, lançaram as que sobraram (as flores, não as transeuntes) ao mar, em ‘memória’ das ‘vítimas’ do aborto clandestino. No final, um participante anónimo jurou que tem vergonha da lei actual.
Aceita-se que um rapaz naquela triste figura sinta vergonha: o curioso é que não seja de si próprio. De qualquer modo, isto evidencia os sacrifícios a que os partidários do ‘sim’ estão dispostos para demonstrar o seu ponto de vista. Em princípio, quem se deixa ser filmado a atirar rosas ao mar já não tem nada a perder, incluindo a decência. Imagino que esta espécie de desespero seduza e converta gente à causa.
O problema é que o outro lado não facilita. Para domingo que vem, os partidários do ‘não’ também preparam a sua caminhada, sabe Deus com que coreografia e adereços. Eis a verdade: a campanha mal começou e ambas as facções ultrapassam os limites do ridículo a cada instante, numa empenhada exibição de fanatismo que confunde, e devia comover, o eleitorado.
Ainda anteontem, por exemplo, a dra. Edite Estrela anunciou o apoio do parlamento da Dinamarca ao ‘sim’ português. Por acaso, a posição dinamarquesa não chegou para suspender o referendo e declarar a vitória da despenalização. A luta, portanto, vai continuar, mediante tempos de antena, comícios, missas, acusações mútuas de barbárie e chorosas manifestações em prol da ‘vida’ ou da ‘mulher’. Por mim, aguardo com ansiedade os pequenos pormenores que as próximas semanas nos reservam, além, claro, das deliberações parlamentares da Líbia e da Turquia. Sei que verei cançonetistas a explicar porque é que o ‘sim’ é vital, e futebolistas a provar o contrário. Sei que verei políticos a revelar convicções íntimas, sem que alguém lhes tivesse perguntado. Sei que verei testemunhos de senhoras arrependidas por abortar e de crianças traumatizadas por não terem sido abortadas. Sei que terei saudades.
Infelizmente, hoje tornou-se moda enxovalhar a campanha. Como o dr. Sampaio, muitos pedem um “debate digno”, e não percebem que a virtude deste debate (digamos) consiste justamente na sua desmesurada histeria. A questão do aborto, no fundo insolúvel e irrelevante, é apenas pretexto para uns tantos portugueses mostrarem que acreditam na intervenção cívica, e que são capazes de esforços desumanos e patéticos para a praticar. Mesmo que finjam, fingem com aprumo, e é altura de reconhecermos o valor dos envolvidos. Nem vale a pena esperar o resultado do referendo (e seria injusto votar nele): num certo sentido, são todos vencedores. E um País que reúne algumas das suas mais destacadas personalidades em tamanho circo só nos pode suscitar orgulho. Orgulho e um medo desgraçado.
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