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Correio da Manhã

Opinião
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14 de Julho de 2005 às 17:00
Há mais de uma década, um órgão de Comunicação Social procurou anatemizar Cavaco Silva, então primeiro-ministro, atribuindo-lhe a autoria de uma frase que, assim, ficou para a história do léxico político: “Nunca tenho dúvidas e raramente me engano”.
Cavaco Silva desmentiu a paternidade da frase, mas a afirmação passou a ser qualificadora de posturas públicas autocráticas, autistas e arrogantes.
Por oposição a tais comportamentos, sempre fiz questão de me colocar ao lado dos que se enganam e têm dúvidas. O importante é que os eventuais erros sejam irrelevantes e que as dúvidas sejam contornadas através da capacidade de decidir.
Há pouco mais de um ano afirmei, numa entrevista a um semanário, que Carmona Rodrigues não tinha perfil para enfrentar com sucesso o desafio eleitoral em Lisboa. Embora o considerasse um técnico competente e uma pessoa de grande integridade, portanto um potencial bom presidente de Câmara, não me parecia capaz de poder vir a derrotar um candidato da primeira linha socialista.
Em Lisboa já haviam baqueado, em coligação PSD/CDS, pesos-pesados como Marcelo Rebelo de Sousa e Ferreira do Amaral, a esquerda apresentava-se unida, e um PS fora do Governo beneficiava do descontentamento popular. Tudo parecia apontar para uma candidatura de uma das suas actuais estrelas governativas. Parecia-me imprudente ignorar estes dados.
A verdade é que, desde então, tudo se transformou e Carmona Rodrigues poderá estar em vias de conseguir uma vitória histórica. Para quem intervém sistematicamente nestes processos, é importante procurar compreender as razões desta radical inversão de expectativas.
Carmona Rodrigues tem grandes possibilidades de êxito porque beneficia da conjugação de um conjunto de novos factores imprevisíveis há meses. O PS chegou ao poder e, em 100 dias, destruiu o capital político que o fez ganhar as legislativas. Um penoso voto de castigo, penalizador dos seus candidatos, está, pois, aí no horizonte. O PS escolheu um candidato espalhafatoso, com um perfil de intelectual incapaz de mergulhar no meio dos pregões do Bairro Alto, da algazarra das tasquinhas de Alfama ou dos queixumes do cidadão comum. O PS, auto-suficiente do alto da sua maioria absoluta, não soube ainda unir a sua família política, que se apresenta totalmente esfrangalhada às eleições de Outubro.
Face à nova realidade, têm estado bem o PSD e Carmona Rodrigues. Têm sabido cavalgar a onda de rejeição do político de carreira e discurso fácil que se instalou em Portugal desde o final de 2004. Têm sabido gerir com sobriedade o difícil equilíbrio da coabitação com Santana Lopes na Câmara de Lisboa. Não têm cometido erros, em contraste com a lamechice novelesca que tem condicionado o pior da candidatura socialista.
Finalmente, está a vir ao de cima o bom senso e a inteligência de um povo que já não alinha em votos de estrita fidelidade partidária. Por agora, está a vencer a pureza e a genuinidade da Lisboa representada na ‘Canção de Lisboa’ e no ‘Pátio das Cantigas’. A verdadeira Lisboa ‘alfacinha’. Está em perda a Lisboa dos ‘cocktails’ dos hotéis e dos chás de fim de tarde .
Carmona ainda não venceu. A lição decorrente do seu imprevisível sucesso aconselha prudência. Contudo, a vitória está aí ao virar da esquina. Para tal, aconselho trabalho e humildade.
Ficarei satisfeito com o seu sucesso, pois pertenço ao clube dos que reconhecem quando se enganam e dos que não desejam o mal dos outros para nele alicerçarem as suas legítimas ambições. Lisboa ficará bem servida, o PSD mais forte e mais próximo de se reforçar como alternativa nacional.
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