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Correio da Manhã

Opinião
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10 de Outubro de 2004 às 00:00
No período exactamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, estava eu a dar os primeiros passos na carreira de jornalista, que viria a abraçar, em definitivo, poucos anos mais tarde, lembro-me dos meus velhos companheiros de estrada, mestres autênticos, contarem histórias do que era a censura e das técnicas utilizadas para, aqui e ali, tentar apanhá-la distraída. Também por isso e muito por força da experiência recontada por Vítor Santos, Carlos Pinhão e Carlos Miranda, principalmente estes pela sua coerência, conferi à liberdade de expressão porventura uma dimensão-extra, porque percebi, muito cedo, o que eram os constrangimentos ditados por uma máquina opressora, que apenas queria ver publicada a versão oficial dos factos e das suas ‘nuances’. Portugal passou de uma ditadura para uma democracia e, nessa aprendizagem, foram cometidos muitos erros, exageros e abusos. Não confino esta observação apenas à comunicação social; refiro-me à sociedade em geral, à organização dos partidos, à aprendizagem da assunção completa do que são os direitos e deveres num regime de cidadania plena e chego à conclusão de que, 30 anos depois, este processo de aprendizagem de viver em democracia (em que a liberdade apela a um maior sentido das responsabilidades) conheceu avanços e recuos mas, nos últimos tempos, a ‘máquina’ desregulou-se, entrou em descontrolo, quiçá por falta de manutenção.
Já não vou ao ponto de dizer que já não se fazem hoje jornalistas como se faziam antigamente como já não se fazem políticos, com todos os seus defeitos e virtudes, como Sá Carneiro, Amaro da Costa, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Cavaco Silva e mesmo Jorge Sampaio. Essa é uma asserção óbvia. O que quero dizer, neste intróito, é que, antes do 25 de Abril, embora horrenda, a censura existia e não era notícia. O combate contra ela era o combate contra o regime. Agora, três decénios passados sobre a ‘revolução dos cravos’, o combate não é – ainda não é – contra o regime mas contra a pior das censuras: a censura velada, encapotada, a censura em democracia.
Tendo em conta o que veio a público, e por muito que considere a opinião de José António Saraiva, ontem, no ‘Expresso’, o que se passou entre Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) e a TVI é uma vergonha. É uma vergonha para o Governo, é uma vergonha para o País, é uma vergonha para a Constituição da República, é uma vergonha para os órgãos de comunicação social.
Podemos discutir se um político conotado com uma determinada força partidária deve fazer política, em directo, sem ser confrontado com a técnica do agora tão propalado ‘contraditório’. Podemos, enfim, admitir que as críticas e as observações de MRS podem ser feitas considerando interesses políticos pessoais. É uma hipótese. Mas quem vem contestar agora este ‘formato’, digamos assim, é exactamente alguém que, sozinho ou acompanhado, na televisão pública ou na privada, serviu-se sempre da comunicação social para fazer passar as suas mensagens. No caso concreto de um ex-presidente da Câmara de Lisboa que, na data em que o era, fazia comentário político, regularmente, na televisão estatal, ninguém quis dar conta do escândalo. O que é normal para uns é anormal para outros.
Acresce que, independentemente do ‘peão’ Rui Gomes da Silva ser ministro dos Assuntos Parlamentares e ter levado a carta a Garcia porventura sem dar conta, nem ele nem quem lhe encomendou o sermão, que a ‘bomba’ iria rebentar nas próprias mãos do Governo, dando importância incomensurável aos comentários do professor Marcelo, toda a gente percebeu que o primeiro--ministro andava incomodado com as opiniões a seu respeito e, particularmente, com a de MRS, que tem mais tempo de antena e, pela sua qualidade, é muito escutada. De resto, a vantagem de alguns senhores passarem pelo futebol é que passamos a conhecê-los. Não apenas os seus fingimentos, as suas manhas e patranhas mas também os seus propósitos. Toda a gente sabe que o actual primeiro-ministro sempre conviveu muito mal com a crítica e sempre se deu bem com quem, no universo da comunicação social, o tratou com devoção, adoração, adulação, eu sei lá, como foi o caso muito particular que eu conheci e testemunhei.
A lisonja baixa e interessada é uma característica dos fracos. Infelizmente, salvo pouquíssimas excepções, que ainda dão para fazer, por exemplo, um grande jornal desportivo, verdadeiramente livre e independente, há cada vez mais esse tipo de lisonja.
Não descarto a hipótese de o patrão da Media Capital ter tido a ousadia de convocar MRS para lhe recomendar uma certa moderação nas críticas ao Governo, não exactamente com o fito de defender este Governo de um desgaste enorme que salta à vista, mas por vislumbrar um qualquer negócio que possa estar condicionado por uma clara vertente política. Fala-se do interesse da PT e o que mais deve preocupar não apenas os jornalistas mas também os cidadãos é esta sede de se querer controlar os órgãos de comunicação social. Há indivíduos, jornalistas ou não, que são colocados em lugares-chave exactamente para fazer este ou outros controlos. Jorge Sampaio, de resto, já alertou para os ruídos que se estabelecem nas redacções.
Se houvesse dúvidas sobre as motivações do episódio, bastava atentar nas palavras serenas e claras de Marques Mendes. Este Governo marcou mais um golo na própria baliza e corre o risco de ser desclassificado da competição por conduta antidesportiva. Resta saber se, como no futebol, o Governo chega ao Natal ou se consegue acabar a época. O PR decidirá.
É público que interrompi uma ligação de 26 anos com o jornal que, até certa altura, sempre defendeu os ideais da liberdade, por uma situação, repetida, de censura, reconhecida pelo Sindicato mas muito mal resolvida por este, uma vez que, em última análise, ao não tornar público o seu parecer (nunca quis ser eu a fazê-lo), colocou-se ao lado do(s) infractor(es). Não quero, aqui e agora, alongar-me sobre esta matéria mas sei quem são os censores, quem os apoia e as suas motivações. Totalmente vergonhoso é o papel daqueles que, do alto de hierarquias mitigadas, promovem a censura para defender interesses instalados. Há muito disso no futebol. A gravidade do caso-MRS é porque envolve o Governo e um ministro, que deveria ter a dignidade de se demitir. Mas os jornalistas, com contas de água e electricidade para pagar, sabem e às vezes alinham neste jogo de pressões que se estabelece dos dirigentes desportivos para as altas ou médias hierarquias dos órgãos de comunicação social. Não é grande a diferença, acreditem, entre um presidente de clube invadir um estúdio de televisão e um ministro invadir a inteligência de um comentador.
Não há diferença porque o objectivo é o mesmo: condicionar a liberdade de pensamento e ser controleiro.
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