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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Setembro de 2013 às 01:00

A incompetência, a preguiça e o desleixo dos deputados criou de novo um imbróglio ao país.

Os talibãs da CNE nem perceberam o absurdo da sua decisão: em vez de promover a informação dos eleitores, como lhe compete, a CNE empurrou os media para o boicote.

As TV em aberto decidiram não noticiar candidaturas nem organizar debates, argumentando com o risco de pesadas multas, a impraticabilidade de acompanhar todas as candidaturas de todos os concelhos e recusando fazer propaganda, como querem a lei e a CNE. A liberdade editorial ficaria coarctada se tivessem de noticiar, como nas legislativas, dois partidos, um que se extinguiu dias depois de exigir aparecer na TV — o que não lhe deu votos — e o de Garcia Pereira, um advogado que, sem ganhar votos com a exposição mediática, quem sabe se não ganha clientes para o seu escritório.

Os critérios jornalísticos, porém, também são discutíveis. Sem o boicote, as TV concentrar-se-iam na campanha dos concelhos mais populosos e "emblemáticos", conceito que não explicam. Sendo as autarquias independentes entre si, a campanha num concelho nada diz aos cidadãos doutra autarquia. Os 12 maiores concelhos têm menos de 3 milhões de pessoas e, juntando-se os tais "emblemáticos", não se chega a 3,5 milhões, o que significa que os critérios editoriais seriam injustos para dois terços da população. Os critérios não seriam só editoriais, mas de maximização da audiência. E, se não é possível às TV fazerem debates nos 308 concelhos, como quereriam legisladores e CNE, é possível fazê-los com todos os candidatos em alguns. As TV nacionais não gostam desse modelo, porque não proporciona o drama e espectáculo de um frente-a-frente, como os combates de boxe na taberna com dois candidatos em pé, a uma mesa de bar, que a SIC fez há anos.

O Porto Canal tem provado poder-se fazer não só uma cobertura equilibrada e ampla na sua área de influência, como debates com todos os candidatos em seis concelhos.

O boicote conjunto das TV em aberto — demitindo-se da obrigação de informar — também revelou como a RTP ignorou o seu mandato de serviço público. O exemplo do Porto Canal indica uma terceira via entre o fundamentalismo da CNE e o das TV em aberto, mas a RTP preferiu encostar-se aos canais comerciais SIC e TVI, pôs-se contra a lei do seu Estado e eclipsou o serviço público.

A VER VAMOS

A BBC COMO MODELO DE INSPIRAÇÃO? É MELHOR ESTUDAR O QUE LÁ SE PASSA

O ministro Maduro avançou nova ideia de reforma institucional da RTP: a criação de um organismo exterior, independente e por concurso, inspirado no BBC Trust, para a RTP ficar mais independente do governo, mas dentro da esfera de influência do Estado. A alteração será melhor do que o que está, mas o modelo britânico está longe de ser perfeito. A BBC está num reboliço por causa dele. Há uma proposta para se abolir o Trust. Debate-se hoje no parlamento e nos media a pedofilia consentida dentro da BBC, a relação inoperacional entre Trust e administração, indemnizações escandalosas e investimentos desastrosos: o mito BBC, com fundas raízes entre nós, tem esse lado que convém estudar antes de se copiar o modelo.

JÁ AGORA

DANÇA COM AS ROTURAS MUSCULARES

‘Os Cavalos Também se Abatem’ é um filme sobre concorrentes de concursos de dança sem fim durante a crise de 29 nos EUA. Por cá também se abatem: sucedem-se acidentes e roturas musculares em ‘Dança com as Estrelas’, depois de igual abate de concorrentes em ‘Splash’. O entretenimento da SIC e TVI virou matadouro, sem nível nem princípios. Já só falta a roleta russa. 

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