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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

A criatura

As autarquias fazem os centros escolares. Os institutos fazem jantares e esbanjam milhões em mordomias

Francisco Moita Flores 10 de Outubro de 2010 às 00:30

Uma criatura chamada José Junqueiro, que substituiu na Secretaria de Estado da Administração Local um grande governante chamado Eduardo Cabrita, depois de um ano de mudo e eficaz silêncio que não contribuiu nem para o seu cadastro nem para o seu currículo, agora, falou. Aliás, a única coisa que o distingue. Fala. Apenas isso.

Esteve no governo e da façanha pode dar conta aos netos. Está cumprido o seu destino. Porém, esta semana decidiu atirar-se aos autarcas. À presa mais fácil e mais à mão. Porque o poder local, como se conhece, tem a idade do regime democrático, tem fraquezas, está exposto ao insulto fácil, à revolta e ao simplismo dos ódios. E é verdade que tem grandezas e misérias. Porém, estão ali, nas juntas de freguesia, nas câmaras, à mão de semear, próximos dos seus eleitores, sabendo directamente das mágoas e expectativas, escutando os lamentos de quem padece, de quem está desempregado, de quem sofre, as lágrimas de desesperados a quem a política nacional, comunitária e governamental pôs na margem da própria vida. Eleitos sempre expostos, desde o insulto à incompreensão, desde a chantagem à vilania.

E também à solidariedade, às obras, à solução dos problemas mais instantes das populações, aquelas que fizeram de Junqueiro governante mas nem sabem onde é o seu paradeiro, em que gabinete se esconde, em que labirinto se protege, feito de um peito que não se dá às balas. Este homem veio dizer que as autarquias têm de gastar menos e gastar melhor. Gastar, o quê? Seguramente não podem gastar os 100 milhões de euros que este governo retirou o ano passado. Nem os perto de 150 milhões que quer retirar agora. Para quê? Para anular o poder interventivo do poder local, para aumentar a angústia de milhões confrontados com a crise do qual esta criatura é um dos beneficiários, através do seu governo. Corta nos seus institutos, direcções gerais, comissões, governos civis e preguiça correlativa? Não. Aí não.

Nas autarquias. Que contribuíram com 14% para o endividamento, enquanto as estruturas dirigidas pelo seu governo contribuíram com 77%! É preciso descaramento. Não fosse o poder local e contavam-se pelos dedos das mãos as obras que o país tem para mostrar realizadas pelo governo do senhor Junqueiro. A começar pela rede escolar que tanta baba faz correr a quem nos governa. A EU e as autarquias fazem os centros escolares que vão polvilhando o país. Enquanto isso, os institutos fazem jantares de centenas de milhares euros, esbanjam milhões em mordomias, e, caladinhos, bem-comportadinhos, pois são eles que fazem do senhor Junqueiro uma pessoa importante para dizer disparates.

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