Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
9
11 de Setembro de 2003 às 00:00
O facto de estar fora do País há alguns dias torna difícil escrever sobre o nosso quotidiano político e social.
Assim, vou seguir uma máxima de Alberto João Jardim. Quando não sabemos de que falar, há duas soluções: fazê-lo sobre política externa ou futebol. Podemos com facilidade interessar muita gente e, se formos cuidadosos, ser minimamente consensuais.
A semana passada escrevi sobre o mundo da bola. Esta semana vou terminar por defender, exaustivamente, o que penso sobre o tema que então abordei: a prematura emigração de jovens futebolistas.
Há oito dias afirmei-me, ao contrário de muitos, desanimado e pesaroso com essa sistemática debandada. Chamei a atenção para o facto desse cisma ser um padrão de subdesenvolvimento próprio da pobreza de alguns países de África e do Leste europeu.
Hoje, vou tocar numa outra vertente. Como é que estes factos influenciarão a relação entre a sofreguidão de um enriquecimento rápido e a gestão de uma carreira, que se deseja longa e bem sucedida?
Olhando para a primeira vaga de jovens que foram cobiçados pelos campeonatos mais ricos da Europa, nomeadamente os produtos da "geração Queiroz", existe uma diferença muito significativa.
Rui Costa, Figo, Paulo Sousa, Fernando Couto, Sérgio Conceição, como Rui Barros e, mais recentemente, Fernando Meira, só embarcaram rumo aos clubes grandes que os acolheram, depois de alguns anos de tarimba no campeonato português.
Todos partiram relativamente jovens, mas com o estatuto de titulares indiscutíveis nos clubes nacionais. Quase todos tinham já muita competição atrás de si e muitos jogos pela Selecção Nacional.
A actual vaga migratória tem uma lógica bem diferente. Cristiano Ronaldo, Quaresma e mesmo Postiga, não chegaram à titularidade indiscutível nos seus clubes de origem e muito menos na Selecção. Muitos deles estão, até, longe da idade e experiência de vida minimamente necessária à consolidação de uma personalidade bem estruturada.
Compreendo a tentação de querer chegar depressa ao topo e de, com um primeiro contrato, assegurar uma vida futura farta e despreocupada. Dessa forma, até se acautelarão, porventura, as consequências de uma lesão grave que, por vezes, põe ponto final prematuro em carreiras auspiciosas. Contudo, há sempre outra face da medalha.
Por um lado, o dinheiro, principalmente quando a opção é entre possuir muito ou muitíssimo, não deve ser tudo na vida. Por outro, imagine-se que alguns dos jovens que agora entraram directamente no Olimpo dos emblemas que são o pico mais alto a que todo o atleta pode ambicionar, não pegam de estaca. Cenário bem possível, dada a abundância de génios que naqueles balneários se acotovelam.
Imagine-se que alguns serão transferidos, daqui a dois ou três anos, ou seja com pouco mais de 20 anos, para clubes mais modestos, onde os seus actuais patrões esperarão a sua definitiva afirmação.
Qual será, nessas circunstâncias, a reacção desses "miúdos", ainda excessivamente imaturos? Como sublimarão essa circunstancial desilusão? Qual a probabilidade de entrarem numa espiral autodestrutiva, que coloque em causa não só a sua carreira profissional, como até o seu próprio equilíbrio emocional? Com que consequências finais?
Esta será uma visão pessimista? Julgo que não.
Se tudo isto acontece noutras carreiras, a jovens precocemente idolatrados, também pode acontecer no futebol. Assim, recomendo prudência a outros candidatos à debandada. A diferença de comportamento está muito ligada ao talento de cada qual, mas lembrem-se da distância que separa os percursos de Rui Costa e de Hugo Leal. O primeiro partiu na altura certa. O segundo teve pressa de mais.
Entretanto, cada vez admiro mais o "mal-amado" João V. Pinto. Atleta de excepção, foi muitas vezes cobiçado extramuros. Por opção, decidiu ficar. Talvez recordado da frustrante e fugaz passagem pelo Atlético de Madrid, no início da carreira. Ele, ao contrário de muitos precipitados, tem o suficiente para viver bem o resto da vida e ninguém poderá apagar o seu nome do pedestal onde está gravado o nome dos nossos melhores. Nem Luiz Felipe Scolari, a quem reconheço competência, mas deve deixar “cair” os maus conselheiros.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)