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Correio da Manhã

Opinião
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31 de Março de 2011 às 00:30

É bom recordar que, ainda a 14 de Maio de 2010, o Primeiro-ministro afirmava: "Portugal foi um dos primeiros países a sair da condição de recessão técnica, da eclosão da crise mundial; foi também um dos países que melhor resistiu à crise em toda a Europa e, finalmente, Portugal teve este trimestre o maior crescimento da Europa (...)" (www.portugal. gov.pt).

Sócrates não podia deixar de saber que faltava estrondosamente à verdade, mas a realidade impôs-se.

Então, o Primeiro-ministro e o seu Governo (os únicos que provavelmente conhecem a dimensão integral do desastre económico e financeiro, dada a ausência de informação e transparência) encenaram uma ‘bela peça’, mais ao estilo trágico: negociaram um programa de medidas à revelia das Instituições Portuguesas – diga-se que um conjunto de medidas cuja parte substancial já tinha sido recusada pelo principal partido da Oposição – num desafio, desprezo e falta de sentido de Estado, sabendo perfeitamente que todo o processo era inaceitável, tanto na forma quanto na substância e depois... num gesto ‘dramático’, o Primeiro-ministro demite-se, tentando uma última e desesperada farsa para manter o Poder: vitimizando-se e, claro, lançando a culpa sobre toda a Oposição, que, é bom lembrar, não tem sido Governo. É como se diz: "Fazer o mal e a caramunha."

Porém, a verdade é que só nos últimos dois anos (dos seis que o Governo do actual Primeiro-ministro já leva), entre Janeiro de 2009 e 23 de Março de 2011, as agências de rating baixaram por dez vezes a notação de Portugal, período durante o qual foram aprovados três PEC (para além dos Orçamentos). E a nova baixa de notação, bem antes de toda esta encenação, já tinha sido anunciada há alguns meses.

A razão pela qual as agências baixam continuamente a notação de Portugal é simples: reside na incapacidade do Governo em conter a despesa. Mais PEC ou menos PEC sem conter a despesa não cria qualquer confiança nos tão famosos mercados, pela simples razão de que o Governo continua a gastar. Mas Sócrates é Sócrates, e gritará convictamente que está a ser assassinado, enquanto é ele próprio quem tenta assassinar (politicamente, entenda-se).

Ponto é que se compreenda que a vida do dia-a-dia de todos nós não é uma encenação política; é mesmo a vida real, cada vez mais dura.

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