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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Fevereiro de 2011 às 00:30

Há muitos anos que o Ocidente tem um discurso e uma prática contraditórios relativamente ao Mundo Árabe. Por um lado, afirma a superioridade de uma política de Direitos Humanos e de Democracia, realçando a necessidade de universalidade desses princípios. Por outro, lida com os regimes onde essas práticas são ignoradas ou minimizadas de um modo como nada se passasse, privilegiando a sua estabilidade em detrimento da necessária mudança. O Ocidente prefere o "status quo" que na aparência lhe é favorável, em vez do inevitável risco que a mudança sempre acarreta.

O petróleo, o gás natural, a contenção do Irão, do movimento shiita e do fundamentalismo islâmico são pretextos para uma acomodação que só se altera quando as crises locais emergem com fragor e violência. O Ocidente tem preferido alianças com os poderes políticos em vez das populações autóctones. O Ocidente aceita o impasse no conflito israelo-palestiniano, não forçando a uma sua resolução. Esquece que os murmúrios mais fortes e sentidos na "rua árabe" são-no por causa desse problema, constituindo um transfundo inesquecível por todos os árabes. Ao surgirem os problemas que todos constatámos na Tunísia, Egipto, Jordânia, Iémen e outros Estados árabes, então o Ocidente imediatamente apoia as pretensões da justiça e democracia, mas, fá-lo por vezes, numa base de quase coligação com o poder existente.

Fá--lo em nome de alguma previsibilidade e defesa dos seus interesses imediatos, mas a questão reside exactamente na não coincidência entre estes os objectivos a longo prazo. É certo que nesses países a força política mais organizada e coerente, se bem que minoritária, é a que entronca na doutrina islâmica radical. É certo que eleições podem levar esse movimento ao poder e, através disso, determinar uma deriva que em princípio é hostil ao Ocidente. Mas deixá-lo eternamente na oposição clandestina, sem partilhar responsabilidades e, com isso, poderem ser julgados pelos eleitores, é adiar a questão. Na Jordânia e no Koweit tal aconteceu, sem sobressaltos decisivos e, em novas eleições, não viram o seu poder reforçado, antes diminuído. O Ocidente tem de acreditar no que diz, ou seja, aceitar que em alguns dos países árabo-islâmicos a democracia leva os movimentos islâmicos a vencerem eleições e, como tal, a serem poder. Se existem moderados nesse mundo, e eu creio serem a maioria, a única questão que o Ocidente com eles deve prevenir é a possibilidade de se extinguir a chama da democracia. Só não é aceitável que um dia sendo Poder, esses movimentos interrompam a democracia em nome do seu próprio ideário. Esse é o limite para a sua contenção.

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